quinta-feira, março 27

Bob Dylan - Bob Dylan, 1962


Não são muitos os músicos de folk music que se tornam famosos por suas composições. Os principais nomes da retomada acontecida nos anos 50-60, após a limpa promovida pelo inesquecível Joseph McCarthy, não fugiam à regra: todos eles pareciam mais interessados no trabalho de reinterpretação que perpetuava o cancioneiro norte-americano, raramente dedicando-se à composição. Bob Dylan, que posteriormente daria motivos de sobra para justificar um hipotético epíteto de maior compositor da face da terra, estreou nesses moldes - rearranjando canções antediluvianas de autores obscuros, desconhecidos. É preciso notar, contudo, que se trata de um álbum bastante particular, quase autoral: entre ele e Freewheelin', por exemplo, existem poucas variações que não sejam específicas às letras de Dylan - quilométricas quando comparadas às rápidas cantigas populares e um pouco mais alegóricas também. O seu violão, seco, continuaria estourando tanto quanto na estréia.

"In My Time of Dyin'" é uma agressão ao ouvido, prova irrefutável de que Dylan vinha se submetendo a sessões intermináveis de Robert Johnson e de que imitar seus ídolos era uma das grandes diversões do rapaz dentro do estúdio e sobre os palcos. Neste quesito específico, é natural que a voz e o estilo de Woody Guthrie sejam perceptíveis em diversos níveis: desde a cadência com que "Freight Train Blues" é apresentada, com Dylan esforçando-se para que os versos caibam na melodia, evitando declamar as linhas sobre os instrumentos, até a tocante homenagem feita em "Song to Woody", na qual Dylan se aproveita da clássica melodia de "1913 Massacre", composição de Woody, para entoar versos próprios em homenagem aos feitos do seu herói. "Talkin' New York", a outra composição de Dylan, é um típico talkin', cheio do cinismo e do humor tradicionalmente usado pelos bluesmen de toda a grande nação.

É compreensível que haja certo desinteresse geral por Bob Dylan: após uma carreira de composições estupendas, torna-se quase inevitável que estas versões primevas tenham seu valor diminuído, sua importância questionada. Equivoca-se, porém, quem pensa que se trata de um mero disco de covers - não há cover na tradição folk. Todo material popular torna-se autoral quando o musicista é competente e mostra-se de fato envolvido no método e na matéria tradicionais.



A título de comparação, recomendo que se ouça a versão de "Fixin' to Die" (composição original de Bukka White) encontrada na estréia de Dylan e a famosa interpretação de Dave Van Ronk para a mesma canção. A sensação de que são músicas diferentes chega a ser desconfortável - e, ainda que Van Ronk possua a voz mais áspera, é a versão de Dylan que se supera em ousadia e agressividade. São duas vozes, duas mortes eminentes bastante distintas - Van Ronk parece resignado; Dylan, ao contrário, parece pronto para matar o Deus que o condena e para o qual canta.


Bob Dylan, portanto, é um disco essencial em sua discografia. Estão nele todas as referências que o norteariam na primeira fase da carreira: a obsessão por Woody, os dedilhados furiosos, os temas, a voz. Para compreender um artista que se transformou tanto ao longo dos anos, mudando desde os instrumentos até as próprias voz e imagem, é importante que se tenha à mão, sempre que possível, suas fontes mais longíquas - e, se ouvir Dylan sem conhecer Woody, Leadbelly, Johnson, Seeger ou Charlie Patton já é pouco recomendável (não estou taxando de pecador e infiel quem não escute tais dinossauros), escutá-lo sem digerir sua própria estréia é absolutamente insensato.

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