sábado, maio 31

The Freewheelin' Bob Dylan - Bob Dylan, 1963


Chega a assustar. De um álbum repleto de versões a um outro cheio de clássicos de autoria própria. O impacto de The Freewheelin' Bob Dylan possui sismógrafos infalíveis: a quantidade de versões que "Blowin' in the Wind" ganhou, o pranto de Ginsberg ao escutar e maravilhar-se com "A Hard Rain's A-Gonna Fall" e, sobretudo, a voz de Eduardo Suplicy elevando-se para entoar, cheio de paixão e dor, versos como

How many times must a man look up
Before he can see the sky?
Yes, 'n' how many ears must one man have
Before he can hear people cry?

referindo-se à Guerra do Iraque, à violência nas favelas paulistas, à epidemia de dengue no Rio de Janeiro, à privatização da Vale ou ao furacão Katrina.

Não se encontra, ao longo do disco, qualquer canção que não tenha se tornado clássica. The Freewheelin' é um álbum de folk impecável: suas melodias, suas progressões, sua produção escassa - tudo isso faz com que o disco seja inevitavelmente colocado ao lado dos grandes clássicos do cancioneiro popular norte-americano. É, de certa forma, um álbum conservador (porque tradicional) e velho (porque arcaico) - considerando que estamos num mundo ideal onde tais adjetivos não sejam insultos.


Aquilo que o separa e o eleva, contudo, é a poética. Nestes primeiros passos na carreira, o diferencial de Dylan concentra-se, quase todo, em suas letras: jamais houve um compositor folk capaz de escrever os versos enigmáticos e poderosos de "A Hard Rain's A-Gonna Fall". Com suas canções essencialmente temáticas ou ingênuas, a tradição folk não comportava a elaboração de letras do porte das que Dylan começava a cantar.



A hierarquia que determina um pedestal superior para a poesia escrita em detrimento à letra de canção não é uma estrutura facilmente assimilada por meu vago intelecto, mas dificilmente alguém me verá lendo os encartes de Moska ou Chico César. A meu ver, tudo resume-se a uma questão de qualidade. Diz-se que a letra não poderá ser livre o suficiente porque precisa sempre adequar-se às medidas justas da melodia - mas quem quer que conheça o mínimo de poesia sabe que escrever um soneto não é lá uma atividade muito lúdica ou livre (só beatniks sem talento e senso, sejam americanos ou brasileiros, escrevem sem medidas). Portanto, considerando que as letras de Dylan possuem qualidades imagética e reflexiva inegáveis, sinto-me livre para referir-me à sua "poética" - o que não significa que eu passe madrugadas lendo os versos adorados por Suplicy.


A influência dos blueseiros do delta, sobretudo de Roberto Johnson, que já era perceptível no primeiro álbum, acentua-se agora em suas próprias composições. "Down the Highway", por exemplo, é construída por uma instrumentação lenta e feroz e por imagens arquetípicas dos velhos músicos do Mississippi ("...walkin' down the highway/ With my suitcase in my hand"). Woody ainda está presente em sua entonação (vide "Talkin' World War Blues") e (tema polêmico) na inevitável conotação política e social de algumas canções.

Dylan nega veementemente qualquer intenção dessa natureza, mas como ignorar o viés messiânico de "Blowin' in the Wind", a nítida e direcionada crítica mordaz de "Masters of War" ou de versos como "I saw a black branch with blood that kept drippin'" (óbvia referência às práticas hediondas da KKK) de "A Hard Rain's A-Gonna Fall"? Parece-me, por fim, que já em The Freewheelin' Dylan começa a pôr em prática a sua interminável sucessão de personas e máscaras: sem ser taxativo, mantendo-se sempre sutil e escorregadio, ele forja o artista contraditório e particular que vai sobrevivendo a tendências de época justamente por conta de seu arcaísmo disfarçado sob o manto de "consciência" ou "voz" de sua geração.

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