sábado, junho 14

Bob Dylan - Another Side of Bob Dylan, 1964


Another Side of Bob Dylan - tal é o nome do disco que mais exigiu de mim para a confecção do texto neste especial. Tudo conspirava para isso: além de ser o disco desta primeira fase de sua carreira que eu menos escuto, é também o menos citado, o menos considerado. E não é uma questão de gosto apenas: é, além de tudo isso, o menos inspirado.

Sinto-me tentado a afirmar, portanto, que em 1964 o método de composição e de gravação de Dylan começava a apresentar nítidos sinais de cansaço - por mais que "Chimes of Freedom" seja uma bela canção, dificilmente não a entenderemos como uma tentativa parcialmente fracassada de repetir a fórmula de "A Hard Rain's A-Gonna Fall". No seu terceiro álbum, Dylan já nos legara parâmetros altíssimos e, por isso mesmo, cruéis - súbito, a pesada influência de Woody Guthrie desaparece e o fantasma que o persegue passou a ser aquele criado por ele mesmo nos dois discos anteriores.

Estaria aí, então, o verdadeiro valor de Another Side of Bob Dylan. Uma inegável prova de que uma mudança - caso Dylan fosse um artista inquieto e pouco afeito às repetições - seria inevitável. A reformulação, que começaria no disco seguinte, tem suas raízes nesse álbum cansado. Mas não exageremos: aqui existem, sim, alguns clássicos.

A canção de abertura, "All I Really Want to do", tem estrutura simples, quase country - numa letra irônica, chega a um refrão onde Dylan propositadamente parece urrar, todo desafinado. De certa forma, alinha-se a "It Ain't Me, Babe", a composição mais bem sucedida do álbum: sua levada igualmente country fez com que Johnny Cash a regravasse e a transformasse num sucesso instantâneo. A letra persiste na ironia - que faz muita gente classificar as duas canções como "anti-lovesongs".


Liricamente, a ironia parece ter sido a principal motivação para as composições: em "Motorpsycho Nightmare", Dylan põe em prática um dos seus métodos mais caros, empilhando referências aparentemente arbitrárias (Fellini, Fidel Castro, F.B.I., Reader's Digest) para descrever mais um dos seus delírios (é o mesmo processo já utilizado em "Bob Dylan's Dream" e que voltaria a aparecer, por exemplo, em "Bob Dylan's 115th Dream", do Bringing It All Back Home).

Contudo, o mais óbvio sinal do cansaço de Dylan em relação aos tradicionalistas da música folk está na abertura do talkin' "I Shall Be Free No. 10":

I'm just average, common too
I'm just like him, the same as you
I'm everybody's brother and son
I ain't different from anyone
It ain't no use a-talking to me
It's just the same as talking to you
.

Nesse rápido e engraçado libelo contra a padronização, Dylan assume a apatia e parece ter percebido que uma mudança e uma ruptura precisariam vir na seqüência - ou ele buscava novas direções ou perdia-se na repetição estéril de modelos dos quais, em apenas dois discos, ele já retirara e utilizara todo o potencial.

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