terça-feira, junho 24

Bob Dylan - Bringing It All Back Home, 1965


Desde já, afirmo que, entre os discos assinados por Bob Dylan, Bringing it all Back Home é o meu predileto. Será difícil, portanto, explicitar todas as qualidades que percebo nitidamente ao longo das suas onze faixas. Em conversas recentes a respeito de Dylan, eu e minha interlocutora comentávamos preferências, pontos altos e baixos e, sempre que chegávamos ao referido disco, afirmávamos ser um dos melhores, senão o melhor, e nos calávamos - numa cumplicidade natural e confortável, na qual ninguém precisava explicar-se ou pedir explicações.

A rigor, é um disco chamado de fundamental, ponto de partida para o que viria a seguir na carreira de Bob Dylan e seria confirmado e melhorado em Highway 61. Como admirador inconteste de suas composições iniciais (que não veria nenhum erro caso o compositor não enveredasse por caminhos outros e permanecesse eternamente compondo com gaita e violão, variando no máximo o número de cordas) e admirador inconteste de sua coragem e da qualidade mostrada em seus discos seguintes, no qual ganha a companhia de uma banda de rock (e que o admiraria ainda que Highway 61 fosse o seu primeiro álbum, início da carreira de mais um astro da música pop), é muito provável que eu perceba, em Bringing it all Back Home, o equilíbrio perfeito entre esses dois pólos, o disco onde um Dylan indeciso sobre qual caminho seguir resolve dividir-se e correr ambos, curioso e partido - do que sai um disco doloroso, irônico, poético, cruel e compassivo.

Incursões delirantes como a do parágrafo anterior talvez sejam o máximo que conseguirei nesta breve resenha. Aos puristas, devo aconselhar que ouçam a versão de "Subterranean Homesick Blues" encontrada no volume segundo da Bootleg Series - nela, Dylan está só com seu violão e sua gaita e percebemos claramente que a canção não possui 1/3 da força que tem em disco, acompanhada daquela batida cavalar e da produção suja. Aos roqueiros de punho direito levantado a saudar o demônio, aconselho que percebam a delicadeza e a pujança de "Love Minus Zero" ("My love she speaks like silence,/ Without ideals or violence,/ She doesn't have to say she's faithful,/ Yet she's true, like ice, like fire").

Na trilha aberta por "Subterranean Homesick Blues" seguem ainda "Outlaw Blues" (a partir da qual o blues do delta começa a mingüar nas composições de Dylan, cedendo lugar ao estilo mais modernizado de Muddy Waters e outros gênios de Chicago) e "Maggie's Farm", outro blues eletrificado que serve de base para uma letra cômica a respeito da exploração de trabalhadores rurais. O humor ainda está presente em "Bob Dylan's 115th Dream" - na qual mistura, sem pudor algum, capitão Ahab e Moby Dick, o Mayflower, Colombo e Captain Kidd para discorrer, cheio de mordacidade, sobre diversas paranóias e modos norte-americanos.


Não bastasse tudo isso, é em Bringing it all Back Home que Dylan resolve apresentar aquelas que, penso eu, são as suas melhores letras. É possível qualificar os versos de "Gates Of Eden" com outra expressão mundana que não seja "obra-prima"? É sabido que Dylan, anos antes, mergulhara, solitário, na mais pura tradição da poesia romântica inglesa - seria estupidez confrontar sua obra com a de monstros como Byron, Keats ou Shelley, mas é igualmente estúpido não notar que "It's Alright, Ma (I'm Only Bleeding)" só pode ter saído desses encontros que o compositor manteve com tais bardos.

Flertando com formas e temas bem mais abstratos - que jamais poderia tirar das manchetes de jornais, por exemplo - compõe ainda "Mr. Tambourine Man", canção que, a exemplo de "Blowin' in the Wind" e "It Ain't Me, Babe", seguiria, fora das mãos de Dylan, um caminho de sucesso numa escala gigantesca devido à versão dos Byrds. Não é de se estranhar que os tradiconalistas da folk music, que idolatravam Dylan até então, tenham estranhado versos como

"Then take me disappearin' through the smoke rings of my mind, / Down the foggy ruins of time, far past the frozen leaves, / The haunted, frightened trees, out to the windy beach, / Far from the twisted reach of crazy sorrow. / Yes, to dance beneath the diamond sky with one hand waving free, / Silhouetted by the sea, circled by the circus sands, / With all memory and fate driven deep beneath the waves, / Let me forget about today until tomorrow."

que, apesar da beleza imagética e melódica (mesmo sem música, sem melodia, com suas rimas internas apenas lidas), não são exatamente sobre a luta pelos direitos civis, o racismo, a vida dos trabalhadores ou dos vagabundos que cruzavam o país. Aliás, não se pode dizer que seja sobre qualquer coisa específica - e justamente por ter utilizando-se da ambigüidade propriamente dita, Dylan começa a se afastar do seu passado, visto talvez como um compositor alienado, exilado em seu próprio e indecifrável delírio. É curioso que a preferência que eu cultive por esse álbum seja, também ela, talvez um delírio próprio e inexplicável - diante do qual eu costumo apenas me calar, alienado e exilado.

2 comentários:

Isadoro A. disse...

gostei do texto. muito lúcido. você faz muito bem em não deixar esse tal de eder fernandes participar deste especial. a unica coisa que ele conseguiria fazer é colocar bob dylan e mayrant gallo no mesmo patamar.

josival disse...

Oi. vocês ja viram o filme don´t Look back? é uma espécie de big brother da ultima turnê acustica deste maravilhoso artista. Dylan fez shows no royal albert hall, todos sucesso de publico, com apenas seu violão, sua gaita e sua voz enjoada. em um ano ele voltaria à inglaterra com uma banda. vendo esse filme, as atitudes daqueles fãs xiitas, admiradores da primeira fase do bardo, mostradas no no direction home, foram compreendidas por mim. não apoiadas. não é brincadeira voltar a um lugar onde se foi aclamado como um cantor folk nos moldes de guthrie e trazer uma nova roupagem dessas e de novas musicas. outra coisa interessante do filme são as brincadeiras relacionadas a donovan, um cantor folk escocês que teria plagiado mr. tambourine man. este cantor, segundo uma quotation que li, estava muito ligado em woody na época, e estava compondo canções folk nos mesmos moldes das canções do primeiro dylan. O que vim descobrir depois é que ele escreveu lindas musicas também, a exemplo de catch the wind e Atlantis. claro que não é um bob dylan, mas é um artista de talento. ele só perdeu muito por ter entrado naquela onda flower power, o que dylan inteligentemente não fez.
gostei de ter lido esse especial,
valeu.