sábado, junho 7

Bob Dylan - The Times They Are A-Changin', 1964


The Times They Are A-Changin' é o álbum que consolida Dylan como o menestrel, o líder, o profeta da juventude de toda a América. Um aparente péssimo negócio para ele. Mas, ao compor e gravar canções como "Only a Pawn in Their Game" ou "With God on Our Side", Dylan já sabia que tal acontecimento seria inevitável. Pouco ou nada tinha de ingênuo - e, cresçamos: o grande artista não é o "sincero", o que quer mostrar sua "alma" ou seus "sentimentos" em sua obra, mas o manipulador, o calmo e controlado artesão que sabe explorar a matéria com a qual trabalha.

A canção de abertura é, ainda hoje, símbolo-mor do conflito entre gerações. Num verdadeiro chamado à batalha, Bob Dylan canta "Then you better start swimmin'/ Or you'll sink like a stone/ For the times they are a-changin'" (inútil a tradução porque sua obra não possui nenhuma versão digna em português): como não imaginar os jovens, rebeldes e cheios daquele sentimento que os faz necessitar de líderes e bandos, eriçados ao escutar tais profecias? Dylan reveste-se, desde o começo, de uma aura messiânica intencional. Grandiloqüência semelhante é encontrada, ainda, nos longos e irônicos versos de "With God On Our Side" (repleta de referências à história estadunidense, aos russos, aos alemães, índios e conflitos envolvendo tais povos) e, sobretudo, na poderosa "When the Ship Comes In".

Sobre essa última, Joan Baez afirma, num dos seus depoimentos a Martin Scorsese em No Direction Home, ter sido escrita após Dylan ser barrado na entrada de um famoso hotel por conta da sua aparência, digamos, maltrapilha. Furioso, sentou-se à máquina e redigiu uma dura, mas esperançosa canção - cheia de imagens dignas de uma página de prosa de Melville ("Oh the foes will rise/ With the sleep still in their eyes") ou de versos de Dickinson ("Oh the fishes will laugh/ As they swim out of the path/ And the seagulls they'll be smiling") e que se encerra com notáveis e taxativas referências bíblicas ("And like Pharaoh's tribe,/ They'll be drownded in the tide/ And like Goliath, they'll be conquered").


Há desolação, ademais, nas quatro composições mais narrativas - a saber: "North Country Blues", "Ballad of Hollis Brown", "Only a Pawn in Their Game" e "The Lonesome Death of Hattie Carroll". Aos pouco afeitos à música folk, devo explicar que um dos métodos que seus expoentes mais utilizavam para a composição era a observação e o roubo de notícias que encontravam nos jornais: assassinatos, corrupção, prisões, crimes passionais, racismo - tudo servia como matéria para as canções. Dylan pratica este expediente e é bem sucedido. Sobre o assassinato brutal da barmaid Hattie Carroll (negra, mãe de onze filhos - e não dez, como afirma a música -, morta por Zantzinger - e não Zanzinger, como afirma a música), canta por cima duma lenta progressão de poucos acordes para, no refrão, elevar o tom e a voz e, em certo momento, registrar uma das suas gaitas mais "comportadas", melodiosas.

Já a paisagem desolada de "North Countr Blues" ("I lived by the window/ As he talked to himself,/ This silence of tongues it was building") faz eco ao protesto de "Only a Pawn in Their Game" que, de imediato, tornou-se um dos hinos do movimento pelos direitos civis que crescia em todo o país. Utilizando-se de uma melodia e de um andamento bastante acidentado, de difícil assimilação, trata de contar, a seu modo, a história de Medgar Evers, uma das vítimas da loucura que guiava a KKK no estado do Mississippi. Versos fortes como "'You got more than the blacks, don't complain. You're better than them, you been born with white skin,' they explain." deixam claro que sutileza era algo que a América não apreciava naqueles dias sombrios.

De narrativa forte, há ainda "Ballad of Hollis Brown", que Dylan afirmou também ser sobre um acontecimento real - mas, até a minha última pesquisa, ninguém havia confirmado nada a esse respeito. Trata-se do único blues mais tradicional de The Times They Are A-Changin', considerando que "North Country Blues" apresenta-se como um folk mais melódico. Por fim, existem ainda duas canções que se diferenciam da temática profética e da instrumentação feroz que encontramos em quase todo o álbum: "One Too Many Mornings" e "Restless Farewell", dois momentos em que transparece mais nitidamente a influência de Woody Guthrie – já em número menor do que no disco anterior.

É, portanto, neste seu segundo disco autoral que Bob Dylan começa, de fato, a acenar em direção a uma estrada mais solitária. Violões e gaitas alheias que o seguiam, lado a lado, começam a ficar para trás em respeito ao artista maior que reconheciam não poder acompanhar.

Um comentário:

rcarcelen disse...

nossa... pra quem está se iniciando em Bob Dylan não poderia ser melhor. Obrigada