quarta-feira, junho 18

A Ficção Política de Martín Kohan e a Política Ficcional de Alan Pauls - Parte II



(Continuação)

Não apenas na escritura a política exerce um poder anestesiante. Quando, na antiga casa do exilado Leon Trotsky (hoje museu dedicado à sua memória), Marcelo é assediado por Norma, tenta desvencilhar-se da excitação concentrando-se na imagem da "bandera de lo que fue la Unión de Repúblicas Socialistas Soviéticas" e completa: "Puedo llamar al cuerpo al orden concentrándome lo suficiente en esa clase de asuntos: si es cierto o no que la Perestrika fue en su origen concebida como una estrategia para salvar al socialismo". A política e a revolução exigem demais - ao que parece, não cedem espaço para a literatura ou mesmo para o sexo. Em Historia del llanto não existe tal suspensão narrativa: política e ficção não se separam em momento algum. O ataque militar a Salvador Allende, por exemplo, é um dos acontecimentos através do qual o herói de Pauls se reconhece como um jovem com relações ambíguas e incertas com o tradicional ideário esquerdista - através do qual, portanto, se descortina muito de sua personalidade: "... cuando el Palacio de la Moneda arde tres veces, una en Santiago, otra en la pantalla del televisor, la tercera en su corazón comunista, precoz pero deshidratado, y él daría lo que no tiene para llorar..." - mas não chora. E sua insensibilidade diante do feroz e violento fim daquela que talvez tenha sido a mais admirada e lamentada tentativa de firmar um governo de esquerda na América do Sul passa a ser, num plano mais restrito, pessoal e incomunicável, um acontecimento a partir do qual a narrativa desenvolve-se de maneira ainda mais admirável - súbito, compreendendo a sua condição, Pauls e seu personagem se entendem e se aceitam perfeitamente.

Assim analisado, talvez surja a impressão de que Pauls constrói uma trama convencional enquanto Kohan trata de experimentar, buscando expandir ou, ao menos, explorar os limites da ficção. Conclusão apressada e absolutamente equivocada. Considere-se O Passado: um romance sem o público e o político. Considere-se, então, Historia del llanto: uma novela saturada do público e do político. Pauls está explorando os limites de sua própria arte, dos seus próprios conceitos. Ademais, no que diz respeito à escrita, Kohan mostra-se muito mais conservador. Sua prosa é linear, comportada e clara. Não afirmo que isso lhe diminua enquanto estilista, pois sua concisão é até mesmo necessária para amparar a narrativa factual a que se propõe o autor, mas não restam dúvidas de que a prosa caudalosa de Pauls (já corretamente comparada às de Nabokov e Proust), com períodos que, por vezes, ocupam páginas inteiras, numa profusão de vírgulas, destoa muito mais da típica prosa contemporânea.

Os dois livros demonstram semelhanças, contudo, na apreensão algo melancólica da revolução e das suas possibilidades ou impossibilidades reais. Tesare, ainda que fiel ao partido - ao ponto de abandonar uma querida namorada por recomendação dos colegas militantes (preocupados com o não-engajamento dela) - parece priorizar os escritos de Trotsky, sobretudo do Trotsky amargurado que reflete a "revolución traicionada". Esse desencanto é ainda mais agudo em Marcelo, que observa o túmulo de Trotsky e percebe-o guardado pela bandeira de uma nação que já não existe. A melancolia em Historia del llanto concentra-se, como já ilustrei, na impiedosa caracterização que se faz de grandes símbolos da militância: o patético músico de protesto e, sobretudo, o torturado que se crê elevado e dignificado pela tortura. A bem dizer, a velocidade e a fúria revolucionárias jamais se afastaram realmente da melancolia: ela está em sua origem (na condição miserável do proletariado) e, embora ausente durante a ação, é nítida após a sua estabilização. Basta lembrar-se da anotação de Trotsky citada e analisada por Tesare: "A la mañana siguiente, separada del día anterior por una noche en claro, Vladimir Ilich tenía el aspecto de un hombre fatigado. Sonrió e dijo: 'La transición de la ilegalidad al poder es demasiado brusca'". Após isso, Lênin passa as mãos no rosto e vai dedicar-se às "tareas del día".



Os óculos de Kohan


Essa súbita estabilização do revolucionário no poder também parece desgostar ao personagem de Pauls: seu interesse concentra-se na ilegalidade de certas vidas militantes passadas nos confins do continente - por isso abomina o cantor prestigiado ou o torturado com aspecto de oligarca.

Outro paralelo possível entre Pauls e Kohan está na criação de personagens ambíguos e surpreendentes, que pontuam a narrativa em ambos os livros: Norma e, no caso de Historia del llanto, um misterioso vizinho militar que, na sua infância, lhe abrigara por diversas vezes em seu apartamento. A primeira, como se sabe, é detentora do caderno deixado por Tesare e é natural que seja considerada uma velha companheira de militância a quem o desaparecido confiara seus escritos. Essa certeza, contudo, se desfaz quando descobrimos a verdadeira participação de Norma na vida de Tesare: para torná-lo um fácil alvo aos militares, fora ela que, em Laguna Chica, seduzira-o. Após a detenção, apossou-se do seu caderno e, temendo represálias, exilou-se no México. Sua condição de exilada, por sinal, está carregada de sentidos: é a colaboradora do governo militar, vinte anos depois, cheia da amargura dos traidores arrependidos, quem vive numa espécie de ilegalidade. Kohan realiza uma admirável inversão para representar as condições do guerrilheiro e da delatora: o primeiro, morto; a segunda, contudo, exilada.

Mas ainda mais louvável me parece a criação de Pauls - que alguns talvez considerem inverossímil, mas que possui uma simbologia poderosa. As relações entre o personagem principal e este vizinho sempre foram esquisitas: certa vez, descobrira nele uma ternura que se julgaria impossível - ardendo em febre, negligenciado pela mãe descontrolada, foi afagado pelo vizinho enquanto o escutava cantar-lhe uma canção. Quando jovem, relembra momentos passados no apartamento ao lado, buscando decifrar se fora abusado pelo militar, mas continua incerto. Os mistérios se encerram quando, ao folhear um exemplar de La Causa Peronista, reconhece os traços do vizinho na comandante Silvia, cujo cadáver fora fotografado e cuja imagem fora estampada junto a uma breve biografia que narrava uma típica vida de militante que sobrevivera e lutara na ilegalidade até ser assassinada. Destaca-se que, num momento de sua militância, munida de um falso bigode, dedicou-se à "el arte de vivir clandestino en campo enemigo, el más difícil y elevado en el que puede aventurarse el combatiente revolucionario". Diante da revelação de quem era aquele espectro e de que, além de tudo, ele está morto, o herói chora copiosamente - como não chorara (embora para isso tivesse se esforçado) ao ver o Palacio de la Moneda chileno em chamas. Se não chorara diante do governo ou do ideal que ardia, chora agora sobre o ser humano morto na busca do ideal. Neste ato final, parece que o próprio Alan Pauls define e revela a relação entre a sua arte e a política: embora ela não se comova pelas instituições, padece com os homens que sofrem em nome delas.

As experiências (estritamente literária no caso de Kohan e pessoal no que se refere a Pauls), enfim, alcançam resultado semelhantes quanto ao questionamento da validade do uso da política na ficção: a primeira, pura, não concede espaço à segunda que, quando trabalhada cuidadosamente, pode acolher a primeira.

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