quarta-feira, junho 18

A Ficção Política de Martín Kohan e a Política Ficcional de Alan Pauls - Parte I




Numa remota e desatenta leitura de A cartuxa de Parma deparei-me (recobrando a concentração) com aquela que talvez seja a mais famosa e difundida sentença de Stendhal - aquela que, sem meandros ou sutilezas, compara a política numa obra literária a um tiro num concerto de música. Tal equivalência, se considerada verdadeira, torna a literatura do próprio Stendhal um infame concerto durante o qual um disparo provoca o desentendimento e a confusão - o clássico francês, em sua sanha realista, não poderia passar ao largo da vida política da Europa pós-napoleônica (e não o fez; pelo contrário: registrou-a de forma invejável).

A associação da política à literatura nunca foi pacífica - e, após tantos séculos de incertezas ao seu respeito, é saudável que se reconheça a impossibilidade de uma solução. Um relativismo acomodado poderia encerrar o debate ao afirmar a natureza política de qualquer narrativa - ainda que não se toque em nenhum assunto político, partidário ou ideológico específico. É contra essa idéia que escreve Beatriz Sarlo no ensaio "La Extensión", onde dedica consideráveis linhas à surpreendente "ausencia de lo público y de la política" no mais bem sucedido romance de Alan Pauls, O Passado - ausência que Sarlo considera "simplemente asombrosa". Sua surpresa é facilmente compreensível: os desencontros amorosos entre Rímini e Sofía atravessam os violentos e dolorosos anos de ditadura na Argentina e em nenhum momento o narrador ou os personagens se referem à perseguição, aos desaparecimentos, às guerrilhas ou à literatura engajada. Sarlo afirma que tal característica pode ser vista como traço de uma literatura experimental, que procura desvendar "cómo puede ser una ficción sin política y sin historia".

Tal experimentalismo, pode-se dizer, resultou num extenso romance que, ladeado ao que possui de folhetinesco e convencional no desenrolar da trama entre os apaixonados, demonstra também uma louvável capacidade de subverter as posições típicas das figuras feminina e masculina na tradicional novela amorosa: os homens, historicamente causadores do desvio e do sofrimento (lembremos Adèle H. - figura fundamental para o imaginário existente em O Passado - e Bovary que, ainda que esteja em primeiro plano, é, sim, vitimizada pelos conquistadores) são extremamente rebaixados pelo narrador de Pauls - enquanto que as presenças de Sofía, Vera, Carmen e Frida (uma terapeuta que tiraniza seus seguidores, entre os quais se encontra o casal central do romance), ainda que parcialmente combalidas e enfraquecidas ao longo da narrativa (como pedem suas condições de humanas) são as verdadeiras e definitivas "guias" ou "donas" de Rímini. Esse deslocamento, afinal, talvez seja a forma sutil com que Pauls decidiu incluir o "público" em O Passado - potencializando a historicamente recente emancipação da mulher por meio de um hiperbólico feminismo, cujo ponto culminante é a espécie de irmandade entre mulheres "que amam demais" que organizam-se em reuniões no espaço Adèle H.

Todo o desentendimento que O Passado provoca só faz com que o romance, ainda recente, vá atravessando os anos com uma nítida condição de clássico - para a qual também contribui um estilo de escrita que não se contenta com a frase curta da jornalística e cinematográfica literatura pós-moderna ou contemporânea, desenvolvendo-se plenamente em períodos extensos, que não renegam qualquer digressão acomodada entre vírgulas.

Edição brasileira de O Passado

Contudo, aquilo que, a meu ver, torna Alan Pauls um autor fundamental para qualquer consideração a respeito da produção argentina contemporânea não é apenas a existência de O Passado, mas a escrita e o lançamento, em 2007, de Historia del llanto. Trata-se de um breve "testimonio", como define o seu subtítulo - algo passível, em termos lusófonos, de ser enquadrado no gênero novela. Das mais de 500 páginas de O Passado, Pauls resume-se às 125 no livro seguinte. Essa alternância pode apontar um criador cansado ou, mais provavelmente, um escritor consciente das necessidades de cada um dos seus personagens, cada uma das suas tramas. Historia del llanto tem a extensão necessária: sua centena de páginas esgota o personagem, embora não o explique claramente.

Há que se dizer, porém, que a questão acerca da extensão se torna secundária diante desta outra, que assombra e desconcerta: por que, após um romance apolítico, Pauls produz uma narrativa na qual a política, na sua acepção mais direta, é o ponto fundamental - até mesmo no desenvolvimento da personalidade do seu anti-herói? Há muito material através do qual se pode especular: ao contrário do que propôs no romance anterior, Pauls parece crer na impossibilidade de alheamento político numa América Latina devassada por conflitos e dividida entre ditadores e guerrilheiros, oficiais e ilegais.

Pergunto-me se seria justo afirmar, então, que Pauls se tornou um convencional autor da literatura latino-americana do início do século XXI que, ainda hoje, escolhe como tema as conseqüências dos regimes criminosos depostos há duas décadas ou mais; mesmo no Brasil, considerado por tantos como um universo literário específico, distanciado do hispânico, obras como Cinzas do Norte, de Milton Hatoum, confirmam essa tendência. Injusto, contudo, seria entender tal "movimento" como anacrônico; lembre-se, por ora, que já havia se passado 24 anos desde a derrota definitiva de Napoleão quando, em 1839, Stendhal ainda analisa a sua influência no já citado A cartuxa de Parma.

Entre os autores argentinos, pode-se destacar Martín Kohan como um dos expoentes desse grupo - e sua decisão em centralizar o aspecto político da vida de seus personagens chega ao limite em Museo de la revolución, romance lançado no ano de 2006. Decidi-me por utilizá-lo nessas anotações pelo fato de ser, a meu ver, um oposto quase exato de Historia del llanto – e que, portanto, seria a demonstração de que a fixação política da atual literatura latina não a uniformizou ou criou um batalhão de entediantes e ingênuos autores engajados.

A primeira dessemelhança entre as duas obras a ser considerada diz respeito ao tempo e ao espaço em que se desenvolvem. Explico-me: a matéria primordial de ambas é, pode-se afirmar, as ditaduras militares na América do Sul (sobretudo na Argentina, é claro) e as atividades guerrilheiras dos militantes de esquerda - mas, enquanto o personagem de Pauls vive e narra a situação de dentro (em Buenos Aires) e no momento mesmo em que o confronto ocorre, Kohan concentra a sua narrativa em dois personagens que se encontram no México, já na década de 1990. Isso considerado, se poderia imaginar que, em Historia del llanto, existe uma visão ainda idealizada ou encantada dos movimentos e das atividades esquerdistas, mas tal não ocorre: o jovem (que é a criança e o adulto) no qual se concentra a narrativa, com sua sensibilidade que alcança a patologia, muito embora apareça como alguém versado nas teorias revolucionárias em voga, abomina a prática e, até mesmo, alguns símbolos da esquerda portenha: são notáveis as páginas em que Pauls se dedica a descrever o asco que seu herói sente por um prestigiado músico de protesto e a revolta que nutre contra um torturado que, com os anos, passa a narrar suas agruras com um visível orgulho, enquanto parece desprezar a ele por não ter passado pelo mesmo.

Essa última figura, denominada "oligarca torturado", ressentindo-se da loquacidade que o anti-herói demonstra em certo jantar, aproxima-se dele e diz: "Eso porque vos nunca estuviste atado a un elástico de metal mientras dos tipos te picaneaban los huevos". Essa provocação gratuita lhe perturba profundamente: "lo que más lo pasma es el Eso con que empieza la frase de veneno que vierte en el agujero de su oreja. Eso, piensa. ¿Eso qué? ¿Qué es Eso? (...)¿Lo que ha estado diciendo en los últimos cuarenta minutos de la fiesta? ¿Lo que ha estado diciendo más la felicidad con que lo ha dicho?" Considera, em seguida, uma maneira de vingar-se do "olicarga torturado"; talvez surrá-lo. Mas, como sempre, hesita ao pôr em prática e nada faz.



A sombra de Pauls


Essa mesma oposição entre a vida de guerrilha e a vida da criação de teorias revolucionárias está presente em Museo de la revolución, mas de forma distinta. Kohan, ao criar Rubén Tesare, faz com que se reúnam os dois pólos que Pauls antagoniza de maneira brutal. Tesare é um desaparecido político que deixou um caderno com um considerável número de reflexões acerca dos escritos de Marx, Trotsky, Lênin. O referido caderno se encontra em mãos de uma exilada argentina que vive há décadas no México e que, teoricamente, havia sido companheira de Tesare. Marcelo, narrador do romance, é o funcionário da editora Amauta que viaja até a Cidade do México para manter contatos com editores locais e, no tempo livre, tentar viabilizar a publicação do caderno de Tesare - que, em realidade, não interessa realmente a Sebastian Gallo, diretor da editora. A Marcelo lhe parece estranho que Tesare tenha refletido a revolução e participado ativamente da tentativa de concretizá-la.

O romance desenrola-se com longas leituras do caderno - a exilada que o possui, Norma, marca diversos encontros com Marcelo para que lhe possa ler as anotações de Tesare. Vez ou outra, narra também detalhes do episódio do qual Tesare sairia detido e após o qual seria dado como desaparecido político - fatos que estariam registrados num suposto diário pessoal que o teórico e militante também deixara em suas mãos. É justamente este episódio o que mais interessa a Marcelo: ele não costuma comentar as reflexões lidas, mas insiste em ver o diário pessoal. De certa forma, as extensas leituras parecem encenar a relação entre ficção e política: a existência da segunda parece podar a primeira. Enquanto Norma lê, a narrativa permanece suspensa - e não apenas a narrativa do fatídico episódio de Tesare em Laguna Chica, pequena cidade do interior argentino, mas o próprio Museo de la revolución: passa-se longas páginas lendo uma espécie de tratado político-revolucionário que, aparentemente, nada tem a ver com a ficção contada. É, sem dúvidas, uma aposta corajosa feita por Kohan: correndo o risco de entediar e perder o leitor, pratica um experimentalismo perigoso ao testar na prática a possibilidade ou não de unir literatura e política de forma direta. É simbólica a afirmação de Tesare de que "Cuando empieza la revolución, se acaba la escritura".


(Continua...)

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