domingo, junho 1

Texto nº1: Quem foi Robert Bresson.

Aviso prévio: o autor Daniel Oliveira, referindo-se aos textos que se seguem sobre Robert Bresson, alerta que será melhor compreendido se for considerado apenas um mero fascinado.


Francês, 1901-1999, cineasta, pintor, preso durante mais de um ano num campo alemão durante a guerra, um dos maiores exemplos de polaridade no cinema (amado pela crítica e odiado pelo público), um tipo isolado, perfil clássico-rigoroso. Em uma entrevista ao Le Monde, no ano de 1971, disse: “…aos 17 anos não tinha lido nada e nem sequer compreendia como tinha conseguido passar nos exames de bacharel. Aquilo que recebia da vida não eram idéias traduzidas em palavras, eram sensações. Música e Pintura – formas, cores – eram para mim mais verdadeiras que todos os livros conhecidos. Nessa época, um romance parecia-me uma farsa. Mais tarde, e com que apetite (!), tal era a necessidade que sentia, lancei-me sobre Stendhal, Dickens, Dostoievski e ao mesmo tempo sobre Mallarmé, Apollinaire, Max Jacob, Valéry. Montagne e Proust – pensamento, língua – impressionaram-me prodigiosamente”.

Foram Chaplin e Jean Cocteau (diretor de A Bela e a Fera), basicamente, que suscitaram em Bresson o gosto pelo cinema. Conhecido como o “jansenista” (termo utilizado inicialmente por Bazin para determinar certo tipo de cinematografia) do cinema francês, foi o ícone máximo do movimento chamado Minimalismo no cinema (a partir dessa idéia pretendo focar este especial sobre Bresson), vangloriado por críticos do quilate de André Bazin e cineastas como Jean-Luc Godard, que não por acaso afirmara certa vez que “Bresson é o cinema francês assim como Dostoiévski é a literatura russa e Mozart é a música alemã”.

A famosa Escola Bresson se caracteriza, além do minimalismo, pelo uso de atores amadores, por vezes até mesmo não-atores, pela rigorosidade e formalismos, por um realismo plástico que parece inimaginável numa arte tão flexível quanto o cinema, e um estilo subjetivo, elíptico e obscuro, no qual detalhes e informações só se dão através de outros meios que não a imagem propriamente dita, como os efeitos sonoros, por exemplo.

Antes de mais nada, é preciso analisar o que de fato é o “Minimalismo” ou algo “minimalista”. Peguemos o verbete “minimalismo” do dicionário da língua portuguesa Aurélio:


Minimalismo
[Do ingl. minimal, 'mínimo', + ismo.]
S.m.

1. Art. Plást. Corrente surgida por volta de 1965, e que visa a reduzir a pintura e a escultura às mais simples formas, muitas vezes repetidas. Forma e conteúdo se confundem sem qualquer intenção expressiva.
2. Filos. Atitude de rejeição a questões filosóficas (a da verdade, a dos fins últimos, etc.), por considerá-las aquém ou além das exigências teóricas.
3. Mús. Método moderno de composição que tem como característica principal o uso obsedante da repetição, só alterada por pequenas modulações e mudanças dinâmicas ou rítmicas.
4. P. ext. Método, estilo ou técnica cuja característica principal é a pobreza de elemento.

O cinema de Robert Bresson simplesmente não se encaixa em nenhum dos itens acima. O que mais se aproxima, naturalmente, é o 4º. Mais abaixo analisarei a expressão “pobreza de elemento”. O melhor que podemos retirar do item 1 é o fator “inexpressividade”, bastante presente nas performances dos atores em seus filmes. Do 2º, não podemos relacioná-lo com nada, já que Bresson era um religioso ascético e quase obcecado pela busca de um modo geral (busca por Deus, busca pela redenção, pela compreensão do mal, etc.). O item 3 é claramente inapropriado, mesmo porque se refere à música (muito embora o áudio dos filmes do diretor francês contenham, parcialmente, tal faceta).


Eis algumas características bressonianas que talvez se encontrem presentes em seus filmes (não confirmo a legitimidade de tais informações justamente por terem sido indicadas pela minha percepção):

1) Narrativa reclusa

Se há um argumento, Robert Bresson o segue do início ao fim, sem afastar-se um só segundo durante a projeção. Se porventura surjam acontecimentos importantes para o enredo, ou são informados fugazmente (em não mais que quatro ou cinco frases) ou simplesmente não são revelados. Se em Pickpocket a idéia principal é o desejo incontrolável de Michel de furtar carteiras alheias, esqueçamos todo o resto; esqueçamos o seu passado e o porquê de sua frieza para com a mãe, a aparição insólita da vizinha Jeanne e a relação absurda entre o delegado da polícia e Michel, assim como os amigos deste último. O que realmente importa aqui é o vício do protagonista, nada mais.


2) Anti-detalhismo

É aqui que se aproxima o 4º item do verbete minimalismo presente no dicionário Aurélio de língua portuguesa. Mas nos filmes de Bresson essa “pobreza de elementos” não se refere à fotografia, montagem, edição, áudio, diálogos, enredo ou coisa parecida. Nada disso; seus filmes têm, sim, todos esses elementos, e todos eles são bastante nítidos e representativos. Esse “elemento” é a informação verbal que indica as passagens da história, utilizado da forma mais seca possível. A nomenclatura dessa característica não é por acaso: Bresson não é não-detalhista, ou seja, um artista que deixa os detalhes de lado; ele é anti-detalhista, aquele luta ferrenhamente contra qualquer palavra sobressalente que possa enfeitar o texto. Em certa passagem de Pickpocket, Michel viaja e passa dois relevantes anos fora. Ele narra, então, em off: De Milão eu fui a Roma, e depois para a Inglaterra. Durante meus dois anos em Londres tive muita sorte, mas as mulheres e a jogatina me fizeram perder a maior parte do meu dinheiro. Voltei para Paris tão pobre quanto antes. Em exatos 12 segundos se sucedem vários fatos na vida de Michel. O espectador nem ao menos é avisado que a personagem pretendia viajar!; quando paramos para ver o que aconteceu naquela passagem, Michel já está de volta ao quarto de sua mãe e há um bebê de Jeanne, a fuga do pai dela, o afastamento de Jacques (amigo deles) e em menos de 10 minutos o protagonista é preso. E as duas únicas frases significativas que Michel pronuncia, enquanto narrador, são “O lugar parecia vazio” e “A polícia não me incomodou mais”.

Em Au Hasard Balthasar, esse processo é ainda mais radical: como Balthasar é um jumento, ele simplesmente não fala.

3) Cenas de registro

Robert Bresson filma a cena. Mais nada. Até mesmo a montagem e a edição seguem a lógica da cena, quando muito a lógica das personagens. Nesse ponto, ele é comparável à contística de Maupassant (no texto nº2 pretendo apontar semelhanças entre o cineasta e o escritor). Sua câmera cumpre aquele que é o seu papel mais bruto - o de registrar, de documentar. Mas Ele não pode, nesse caso, ser considerado um minimalista por seus filmes de longa-metragem possuírem mínima duração (quase nenhum de seus filmes não chega nem mesmo aos 90 minutos; o mais longo deles foi Journal d'un curé de campagne, o único que passou dos 100 min.); deve, sim, levar tal alcunha tão-somente pela característica de dissecação e fragmentação formal que lhe é tão notável.

O cinema de Bresson, em termos extremos, é o completo vazio, a quintessência do nada, a análise bruta do real dentro e fora de um ser humano (e é por isso que ele é bem diferente de outro bruto, Rosselini, que possui uma direção mais desleixada, no bom sentido do termo). O genial cineasta francês sempre desprezou a pompa, o berrante e a distorção externa. Ele próprio já afirmou que o cinema não é um espetáculo; é, antes de mais nada, um estilo, uma forma de escrita. E seu principal problema consiste em “Fazer ver o que tu vês por intermédio de uma máquina que não vê como tu vês e fazer ouvir o que tu ouves por intermédio de outra máquina que não ouve como tu ouves”.

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