quinta-feira, junho 19

Texto nº3 - Ainda sobre redenção, adaptação, Au Hasard Balthazar e Mauriac.

Parece que minha postura, pelo que se constata nos textos anterio- res deste especial de cinema sobre Robert Bresson, não se preocupa em mostrar o que é de fato o estilo bressoniano, mas antes em tentar explicar o que não é seu cinema. Devo confessar que, embora os textos estejam caminhando rumo a essa vertente última, pretendo ocupar-me igualmente das duas. Isto, por motivos óbvios, é apenas uma pretensão.

A obra-prima por excelência de Robert Bresson e um dos melhores filmes de todo o sempre é Au Hasard Balthazar. Não há o que discutir. Note-se que a expressão “não há o que discutir” é completamente diferente de “não tem comparação”. Embora Balthazar ocupe o topo da lista, seu nível é apenas um pouco maior (pouco mesmo; falo de milímetros de diferença) que o de longas como Un condamné à mort s'est échappé, Pickpocket, Mouchette, Procès de Jeanne d'Arc ou Journal d'un curé de campagne. Sem contar que a definição de “o melhor filme” abrange não só qualidades técnicas, autorais, estéticas e artísticas, como também profundidade do tema, proposta, abrangência social, temporal e universal, dentre outros.

Balthazar é nada mais que um jumento; a história se inicia com o seu no mínimo esquisito e simbólico batizado, feito pela ainda pequena Marie, a sua primeira dona. Ao longo do filme, vemos o burro crescer e passar pelas mais terríveis provações. A ausência do convencional em Bresson é tanta que há cenas em que Balthazar é maltratado e nós não ficamos nem chocados nem com desejo de rir - só há o velado constrangimento. Num trecho, um dos vilões do filme, ao ficar empacado com o burro na estrada, resolve como última alternativa tocar fogo na cauda do animal com uma folha de jornal amarrada numa corda. A passagem é completamente desconfortável, não apenas pelo fato em si, mas também pela expressão de indiferença que o homem maldoso adota após praticar tal perversão. Nessa cena há também um belo exemplo do uso psicológico da câmera de Bresson: enquanto o sujeito tenta acender o fósforo, somente suas mãos são mostradas, e é através do movimento delas que o cineasta revela as emoções do personagem.

Paralelamente ao crescimento de Balthazar, vemos se transformar numa bela mulher a pequena Marie. Não por acaso, Marie também passará por vários sofrimentos. Na bastante esclarecedora entrevista que publicarei nos próximos textos, Bresson afirma que desejou mostrar os vícios e os pecados da humanidade - e é a partir dessa afirmação que podemos começar a perceber todas as referências e metáforas do filme. Depois de algum tempo da projeção começamos a nos perguntar: quem é o protagonista do longa? Marie ou Balthazar? Na minha opinião, aqui Bresson utiliza talvez o seu melhor golpe elíptico de toda a carreira: Balthazar nunca deixou de ser o personagem principal; nós só nos confundimos simplesmente pelo fato de que ele é pouco mostrado pela câmera, ou melhor: não é tão mostrado quanto um protagonista de qualquer outro filme deveria ser. Mas essa mostra contínua não é importante para Bresson; creio que para ele isso é algo “berrante” e caprichoso, ou mesmo amadorismo cinematográfico. E quão relevante a ausência da personagem não poderia ser? Para mim, esse é um recurso de mestre e nada mais. A princípio, supus que Bresson unira o útil ao agradável: como Balthazar é um burro de verdade e obviamente não fala, seria mais aprazível não pô-lo em cena a toda hora, pois isso seria complicado de filmar e pouco viável para um bom andamento da narrativa. Mas hoje creio que o cineasta, embora soubesse que mataria dois coelhos com uma só cajadada, nem ligou para isso: sua preocupação era em provar o quão poderoso era o processo cinematográfico e do que seus artifícios eram capazes de provocar. É até desnecessário dizer que cada arte tem suas artimanhas; afinal, o que me impede de dizer que a personagem principal de En attendant Godot é justamente Godot? Qual a maior magia do longo crescendo Bolero de Ravel senão a falta de qualquer outra variação? Acredito que não há mesmo outra opção se levarmos em conta a análise do título do filme e suas traduções:

Au Hasard Balthazar: o título francês e original significa algo como “Ao acaso, Balthazar”, ou seja: o acaso fez com que o jumento sofresse todas aquelas perversidades e, sobretudo, acompanhasse à distância as desgraças de Marie. Ele está sempre presente, como um fantasma, um “olho divino”, um ser onipresente e onisciente (não, não estou comparando Deus à imagem de um burro - mas é quase isso).

A Grande Testemunha: o título daqui do Brasil é vulgar, mas coerente. Com efeito, Balthazar testemunha todos os atos pecaminosos da humanidade, às vezes sentindo na pele, outras vezes apenas observando. E é nas figuras de Marie e seus pais, de Gerard, de Jacques, de Arnold e etc que ele acompanha o orgulho, a gula, a avareza, a luxúria e outros pecados capitais.

Peregrinação Exemplar: o título de Portugal é o mais esquisito. Naturalmente que “peregrinação” designa a sina do jumento; quanto ao “exemplar”, provavelmente é uma alusão à resistência do animal, que poderia muito bem morrer diante das atrocidades por qual passa, mas acaba morrendo sozinho, numa emblemática cena final, no meio de um rebanho de ovelhas (uma das cenas finais mais fantásticas da história do cinema, diga-se de passagem).

Zum Beispiel Balthasar: em alemão, o título do filme significa “Por exemplo, Balthazar”. Se o de Portugal é o mais esquisito, esse é o mais incompreensível. Talvez queira implicar no uso quase metódico (e didático) que Bresson faz da projeção para mostrar as maldades humanas.

Min vän Balthazar: o título sueco chega a ser engraçado: “Meu amigo Balthazar”. Dispensa explicações (claro que esse “engraçado” se aproxima mais do irônico que do jocoso).

Balthazar: os EUA optaram por utilizar apenas o nome do burro. É a tradução mais próxima da original, para variar. Só não traduziram o “Au Hasard” porque, pelo que me parece, ele está ali por motivos lingüísticos, e, como tal, são intraduzíveis: “Au Hasard” rima com “Balthazar”. Se a tradução fosse literal, teríamos algo como Randomly Balthazar ou By chance Balthazar, e tais títulos seriam fonologicamente desconexos.

Robert Bresson foi um pioneiro naquilo que poderíamos chamar de “verdadeira adaptação cinematográfica”: ele literalmente adaptou os recursos literários para os de sua profissão e jamais deu importância à fidelidade; aliás, para os que são da opinião de que a melhor forma de realizar um filme adaptado é sendo extremamente fiel ao livro, devo dizer que, de todas as controversas idéias sobre o assunto, esta é, se me permitem a palavra, a mais tola. Bresson sabia disso: suas adaptações das obras do escritor francês Georges Bernanos (Journal d'un curé de campagne e Nouvelle histoire de Mouchette) são tão desiguais que chegam a ser, no bom sentido, revoltantes. O cineasta francês, sendo o idealizador incorruptível que era, moldou os romances para o cinema tão-somente à sua rigorosa maneira, sem contar os meios bastante insólitos empregados pelo diretor: no Journal, por exemplo, há uma cena em que o padre encosta na entrada da porta; em seguida, o padre diz, em off, que perdeu as forças e precisou apoiar-se na entrada da porta, ou seja: exatamente o que a um segundo atrás a câmera mostrou. Noutra cena, uma jovem empurra o padre para dentro de um aposento, às pressas, e logo após a tomada o próprio empurrado descreve exatamente o que aconteceu (em off novamente). Todo o filme segue essa linha; um detalhe que, por motivos óbvios, certamente não encontraremos no livro de Bernanos.

Inclusive Journal d'un curé de campagne é outro filme sobre redenção de Bresson. Talvez toda a obra do mestre francês possa ser dividida assim: os que buscam a redenção e se questionam, e os que buscam a redenção mas não se questionam. Journal d'un curé de campagne e Pickpocket se encaixam no primeiro grupo. E os que se encaixam no segundo só vão para lá porque não podem questionar - realisticamente falando, isso é impossível. Como no caso de Balthazar, um burro que não fala, e no de Mouchette, uma criança que ainda não tem maturidade suficiente para refletir sobre tal assunto. Mas todos eles buscam, conscientemente ou não. E não deixa de ser curioso o fato de Bresson utilizar um tema tão recorrente e justamente por causa deste fazer filmes completamente diferentes de quaisquer outros. A história de Un condamné à mort s'est échappé é exatamente esta: um condenado à morte escapa de sua condenação. Mas Bresson muda sua perspectiva e opta novamente pelos questionamentos acerca da redenção; e é isso que torna este longa tão diferente de outros do mesmo tema como Papillon, Midnight Express ou The Shawshank Redemption (o engraçado é que este último tem até mesmo o nome “redenção” no título).

Ele era francês, católico, ascético e visionário. Falo de Robert Bresson, mas poderia muito bem estar falando do escritor François Mauriac. A Teresa do livro já resenhado no blog Thérèse Desqueyroux muito se assemelha a um personagem bressoniano (deveria ser o contrário, já que o romance veio antes dos filmes de Bresson): alheia ao seu mundo, Teresa tenta se mostrar menos apática diante daqueles que a cercam; luta para ser compreendida por todos que também lhe são incompreensíveis; e deseja, acima de tudo, mesmo sem saber como nem por onde começar, se redimir dos atos vis que supostamente praticou ou sugeriu. Características assim não são difíceis de encontrar nas igualmente problemáticas almas do cinema bressoniano. Mais uma vez nos perguntamos: o que o desejo de redenção provoca, afinal, num ser humano? Ou melhor: o que provoca no ser humano o desejo de se redimir? O quão frágil tal escolha pode ser, e quais conseqüências a mesma acarretará? Considero Robert Bresson um grande cineasta, mas, acima de tudo, um poderoso artista, um mestre que consegue suscitar nos espectadores reflexões tão nítidas, intensas e universais. Seus filmes se igualam a grandes obras da literatura ou da filosofia, e considero tal comparação um grande e raríssimo feito. São poucos os homens da arte que conseguem ser equivalentemente geniais no tratamento do tema e no trabalho estético de suas respectivas áreas. Bresson era tão formalista que aparentemente seus trabalhos não deveriam trazer nenhuma novidade temática ou reflexiva. Mas trouxeram - e em pleno século XX.

Um comentário:

Anônimo disse...

Obrigado por coisas boas