quarta-feira, julho 16

A Casa de Papel - CARLOS MARÍA DOMÍNGUEZ (Francis, 104 pág.)


Carlos María Domínguez, escritor, argentino, residindo no Uruguai, somente com o premiado A casa de papel, uma novela impecável, traduzida também para o inglês, francês, italiano, alemão e holandês, foi apresentado a nós, seus vizinhos brasileiros. A edição brasileira é da Editora Francis (98 p.), impressa no outono de 2006, livrinho encantador desde a capa. Suponho que a primeira reação de qualquer leitor ao se deparar com a produção argentina contemporânea seja ver, com um misto de curiosidade e descrença, como a geração sucessora de Borges, Bioy e Cortázar está se saindo. Esta novela, no entanto, não precisa de tais comparações, senão para comprovar seu desvencilhamento.

O livro é o tema. Ao longo da novela se convence quem ainda duvide que os livros mudam a vida das pessoas; há quem se transforme em professor de literatura, quem morra com uma enciclopédia na cabeça, até um cachorro chileno que morreu de indigestão com Os irmãos Karamasov. As pessoas também mudam o destino dos livros; alguns os lêem, outros calçam mesas com um volume, e assim por diante. Ao tratar da bibliofilia, não pode deixar de lado as excentricidades próprias da atividade. Carlos Brauer, bibliófilo argentino, é um leitor voraz:

"Ele (...) devorava quantos livros chegassem às suas mãos, junto a inúmeros pacotes de balas de caramelo que coalhavam o chão de seus quartos. O hábito dos caramelos substituía o do cigarro, que os médicos lhe haviam proibido, e era tão aflitivo como sua paixão pelos livros, reunidos em longas estantes que ocupavam os quartos, do chão ao teto, de ponta a ponta; empilhavam-se na cozinha, no banheiro e também em seu dormitório."

Essa relação da leitura com o tabagismo é bem ilustrativa. Na relação com os cigarros o fumante está fadado a sucumbir. Um amigo fumante me disse sentir prazer em saber que os cigarros eram consumidos reciprocamente a ele. Brauer era assim, sujava os livros de gatujas e anotações, preocupava-se mais em adquirir novos livros que em conservar os que já possuía. Em sua tentativa de ordená-los em sua casa, pelo tema das afinidades, dá sinais de loucura: ao tomar vinho com "uma magnífica edição de O Quixote", ou ao dispor livros numa forma humana, em cima da sua cama. Ele havia sucumbido. Termina por erguer num vilarejo remoto, usando seus livros como tijolos, a casa referida no título. Como se precisasse destruir os livros para recuperar sua integridade.

O que há de insólito na narrativa é contrapesado pelo tom do narrador, em primeira pessoa, um argentino professor de Cambridge, que não deixa de se impressionar com a casa improvável. É por esse viés que percebo uma relação com a geração antecessora, principalmente o realismo-fantástico, característico da outra geração. O nome de Borges, inclusive, é citado inúmeras vezes nas divagações e curiosidades do mundo literário que fartam no livro. A trama de A Casa de Papel é marcada pela hipérbole, pelo improvável, e essa é uma forma de diferenciar-se do caráter fantástico das narrativas argentinas de Borges, Bioy e Cortázar. Há o extraordinário, mas não o sobrenatural.



O que fica, lido o livro, é diferente a quem fique. A uns pode parecer um alerta, como ao professor. A outros, um estímulo. Reproduzo um trecho, destacado na contracapa:

"A biblioteca que se forma é uma vida. Nunca, digamos, uma soma de livros soltos. (...) O senhor os acumula nas prateleiras e parece que os soma, mas, se me permite, trata-se de uma ilusão. Seguimos certos assuntos e, ao fim de um tempo, terminamos por definir mundos; por desenhar, se prefere, o percurso de uma viajem, com a vantagem de que conservamos suas marcas."

O que Carlos Brauer fez ao tentar ordenar sua biblioteca, entenda-se sua íntima relação com os livros, foi tentar ordenar um aspecto importante da sua vida. É compreensível que achasse o sistema de classificação vigente "vulgar", não lhe aprazia, que se dedicasse ao estudo de matemática complexa e usasse números fractais para a classificação. A loucura é o resultado de uma empreitada interna, projetada nos livros.

Tão pouco se demora Carlos María Domínguez somente nessa relação íntima com o livro. A ironia permeia a narrativa como na descrição dos escritores argentinos cujas "... aspirações literárias eram uma política e, de um modo mais decisivo, uma tática militar, empenhados que estavam em derrubar as paredes do anonimato, uma barreira infranqueável que uns poucos conseguiram atravessar na condição de privilegiados." Ou na discussão da "'Relações entre realidade e linguagem'", ocasionada por uma permissão poética de Laurel acerca da morte de Bluma Lennon, que se dá no primeiro parágrafo. Contudo a ironia não domina o tom do livro, bastante à vontade com a linguagem literária, beirando, algumas poucas vezes, o lirismo.

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