quinta-feira, julho 10

Crônicas Vol. 1 - Bob Dylan (Editora Planeta, 323 pág.)



"A cena da música folk havia sido um paraíso do qual eu tinha que sair, como Adão teve que deixar o jardim. Era simplesmente perfeito demais. Dentro de poucos anos, se desencadearia uma tempestade de bosta. As coisas começariam a ser queimadas. Sutiãs, certificados de alistamento, bandeiras americanas, pontes também - todo mundo estaria sonhando em se dar bem. A psique nacional mudaria, e em muitos aspectos lembraria a noite dos mortos-vivos. A estrada seria traiçoeira, e eu não sabia para onde ela iria levar, mas a seguiria mesmo assim. Era um mundo estranho que se desenrolaria à frente, um mundo trovejante, com arestas pontudas luminosas. Muitos entenderam errado e jamais conseguiriam entender direito. Fui direto para dentro desse mundo. Ele estava escancarado. Uma coisa era certa: não apenas não era governado por Deus, como também não era governado pelo diabo" Dylan no parágrafo final de Crônicas Vol. 1.





De início, tomei a decisão de não ler Crônicas.

Como admirador das canções e letras de Dylan, cheguei (Deus sabe como) à conclusão de que a sua prosa provavelmente seria tenebrosa. Agora, porém, faço uma vaga idéia do que me levou a tal previsão: as influências beats do compositor, um homem que leu Kerouac e que caminhou pela América com Ginsberg.

Não sei até que ponto isso se trata de preconceito, de ranço antipopular - afinal, como eu já disse, sempre admirei Dylan e nunca desprezei o compositor popular ou a canção rasteira de quatro acordes (D, A7, G, A - base de dezenas de canções de Guthrie e Leadbelly). Pelo contrário, jamais nutri pretensões de me livrar de tais entidades. O que passou a me incomodar na prosa e na poesia beatnik é relativo à qualidade apenas. O exagero de Kerouac na construção dos personagens, o descontrole verbal e formal de Ginsberg - neste processo, creio que só Burroughs continuou intocável no meu imaginário.

Sim, Crônicas é um livro rápido, todo erguido segundo preceitos que se tornaram famosos através dos beatniks, mas que jamais foram invenções deles (potencializadores, sim; inventores, jamais): a frase do escritor Bob Dylan é rasteira e ríspida. Seu estilo remete qualquer leitor a uma prosa tipicamente estadunidense - prosa de gente que vai desde Mark Twain, Salinger, Hemingway até os referidos Kerouac e Burroughs. Sempre mordaz e pouco afeita à adjetivização gratuita. A ironia moldando a sintaxe e indicando o vocabulário.

É curioso observar que tal opção de escrita se choca parcialmente com sua pena de compositor. Suas canções mais longas e simbólicas beiram a poesia romântica e - muito embora não se permitam floreios e vícios parnasianos do compositor popular que quer alcançar a poesia escrita - demonstram um autor que parece não se enquadrar em termos de escrita coloquial e despretensiosa. Suas letras ostentam (de forma comedida e admirável) as referências eruditas que o autor possui - coisa que raramente faz no livro; e que, quando o faz, faz utilizando-se sempre da ironia: notáveis são os trechos em que se refere ao seu contato com Genet, Picasso e Balzac (“É engraçado tê-lo por companhia. Ele veste um manto de monge e bebe xícaras infindáveis de café. Sono demais embota a mente dele. Um dente cai e ele se pergunta: ‘O que isso significa?’ Questiona tudo. Suas roupas pegam fogo em uma vela. Ele se pergunta se o fogo é um bom sinal. Balzac é hilário”).



E é justamente o humor que torna a leitura agradável e enriquecedora. Há autores, confessemos, que nos encantam pela inteligência que demonstram na construção de suas narrativas: é tal com Borges, com Bioy Casares, com Cyro dos Anjos. O Dylan prosador é também assim. Seu texto possui o registro das impressões que uma inteligência óbvia (mas que se expressa de forma cifrada) teve ao manter contato com as grandes obras da literatura ocidental e com os músicos e compositores fundamentais da canção estadunidense. E essa fórmula, restrita a pouquíssimos homens, é o meio pelo qual Dylan constrói a sua narrativa sem torná-la cansativa ou restringi-la apenas aos seus fãs - algo pelo que também é responsável a opção pela narração acronológica.

Crônicas tem um valor literário inquestionável que se revela desde o seu primeiro capítulo - que reúne, muito provavelmente, algumas das melhores páginas deste incansável gênero literário que se propõe a registrar memórias. Fica claro, de imediato, que existe muito de ficção e retoque na narrativa que supostamente deveria ser fiel aos fatos, mas a grande qualidade de Dylan é evitar a tensão desconfortável entre o que é fato e o que é ficção. Suas descrições do inverno nova-iorquino revelam sua capacidade na construção de ambientes e cenários - o contraste da desolação que as nevascas representam com a paisagem extremamente urbana e povoada da metrópole e a vivacidade do jovem músico recentemente chegado à cidade é um dos pontos altos de Dylan como criador literário:

"Quando eu cheguei, o inverno estava de matar. O frio era brutal, e cada artéria da cidade estava entupida de neve, mas eu tinha vindo do norte enregelado, um cantinho de terra onde bosques sombrios congelados e estradas glaciais não me chateavam. Eu podia transcender as limitações. Não estava em busca de dinheiro nem de amor. Tinha um senso de percepção ampliado, estava firme no meu rumo; para completar, era inexperiente e visionário. Minha mente estava forte como uma armadilha, e eu não precisava de qualquer garantia. Não conhecia vivalma naquela metrópole sombria e enregelante, mas tudo estava prestes a mudar - e depressa.”

Se a ambientação é irretocável, do mesmo modo são as descrições psicológicas e físicas que o autor faz de figuras fundamentais que lhe cruzaram o caminho. Creio, por sinal, que seja justamente esse o ponto em que mais se relaciona com os autores beats: suas descrições não são baseadas em clichês físicos e psicológicos - ao contrário, são construídas na medida em que são descritas as atitudes e registradas as falas dos seus personagens. Percebe-se tal característica nitidamente quando Dylan se refere ao seu encontro com Dave Van Ronk:

"Van Ronk poderia falar o dia inteiro sobre o paraíso socialista e utopias políticas - democracias burguesas, trotskistas, marxistas, organizações internacionais de trabalhadores - ele conseguia se ligar nesses assuntos com firmeza (...) Mas, ao mesmo tempo, Van Ronk não deixava você esquecer que ele tinha um jeito próprio de ver as coisas."

Observa, ademais, que ele e Van Ronk estavam praticando estilos e canções de origem e intenções semelhantes. De início, Dylan mostra-se verdadeiramente integrado ao grupo de músicos folk de NY, mas a sua desilusão e isolamento não demoram. Os trechos das suas Crônicas que mais ecoaram dizem respeito justamente ao culto que se ergueu ao seu redor, amparado, sobretudo, na mitificação feita devido a um suposto caráter político e messiânico comum a todos os artistas do Greenwhich Village:

"Joan Baez gravou uma canção de protesto sobre mim e a música estava tocando um monte, desafiando-me a assumir - sair e assumir o comando, guiar as massas, ser um defensor, liderar a cruzada. A canção me conclamava pelo rádio como um serviço de utilidade pública."



Dylan e Ginsberg

É bastante simbólico que a parte final deste primeiro volume de Crônicas refira-se ao trabalho de composição de um álbum gravado e lançado já nos anos 80. Oh Mercy, datado de 1989, é ainda hoje pouco valorizado dentro da discografia de Dylan. Suas memórias, contudo, demonstram a sua importância para a continuação da sua carreira de compositor - as descrições das reviravoltas, das oscilações de humor e empolgação com a feitura do disco e da relação conturbada com o produtor Daniel Lanois humanizam bastante o seu processo de produção, quase sempre mitificado por admiradores e críticos.

São escassos os momentos em que Dylan se presta a esclarecer suas opções e métodos musicais. Quando o faz, é quase sempre de forma vaga, pouco compreensível. Num momento, cita artistas brasileiros como João Gilberto, Roberto Menescal e Carlos Lyra que

"... estavam libertando-se do samba infestado de percussão e criando uma nova forma de música brasileira com modulações melódicas. Eles a chamavam de bossa nova. Quanto a mim, o que fiz para me libertar foi pegar modulações simples do folk e colocar imagens e atitudes novas, usar fraseados que capturavam a atenção e metáforas combinados com um novo conjunto de costumes que evoluíam para algo diferente."

Ora, se a observação sobre a bossa nova é corretíssima e estritamente musical, a explicação dada para o seu próprio procedimento é extremamente vaga, baseada em "atitudes", "imagens" e "metáforas". Talvez por isso, pela decisão de não escrever um pálido texto biográfico intercalado por explanações musicais intoleráveis, Dylan consiga sublimar a sua prosa, tirando-a da infame e vasta prateleira de memórias desinteressantes - consciente do seu talento e percebendo a perigosa armadilha que persegue o memorialista, Dylan opta por romancear a sua própria existência. Ao narrá-la, deixa explícita a sua opção pela poesia - essa auto-ficcionalização serve apenas para fortalecer sua imagem, já esmagadora, na cultura popular norte-americana. Os detratores podem abominar esse processo de auto-mitificação, taxando-o de insincero e manipulador, mas sua opção só faz mais nítida a sua condição de artista pleno, fecundo e imortal.

2 comentários:

carolina disse...

Querido Rodrigo,
permita-me dizer que o que me encantou neste livro é exatamente a forma direta com a qual foi escrito.
Quando você observa a citação da bossa-nova no seu último parágrafo, você diz que Dylan foi vago ao comentar sobre o que ele buscava fazer na música americana.
Vago??? Não! De forma alguma! Ele foi extremamente preciso em descrever seu processo criativo.
Enquanto o folk tratava de figuras míticas tradicionais pertencentes a diversas culturas que contituiram a cultura americana, Dylan optou por contextualizá-lo utilizando "...fraseados que capturavam a atenção e metáforas combinados com um novo conjunto de costumes que evoluíam para algo diferente".

E assim Crônicas descreve como a mente do Bob Dylan funciona, como o mundo chama a sua atenção e como ele transforma suas impressões em ARTE.
É um livro que fala menos sobre fatos de sua vida e mais sobre as motivações de sua vida.
Não o vejo como um mito americano. Eu pessoalmente o vejo como um dos grandes homens da humanidade que possue a única e restrita função de nos ajudar a enxergar através das aparências.

Vamos esperar pelo volume II que, pelo que sei, já está em processo para ser lançado até o final deste ano.

Rodrigo L. disse...

Carolina,

Nós gostamos do livro pelos mesmos motivos. Também admiro a prosa de Dylan, direta e sempre irônica.

Quanto à questão da bossa nova, primeiro devo dizer que quando eu afirmei que ele foi "vago", não fiz uma crítica. Era apenas uma observação, sem juízo de valor. Inclusive, acho que foi uma ótima saída. Entendo o seu ponto de vista - ele realmente explica como trabalhou a tradição folk, mas o faz mais em relação à lírica (com essa afirmação sobre "metáforas", "imagens" e etc.). Ao falar dos fraseados, acho que resvala na questão estritamente musical, mas muito pouco. Explico-me: sobre a bossa nova, ele fala das modulações melódicas, mas a respeito de seu própro som ele não fala, por exemplo, sobre ter mudado a estrutura básica da canção folk - o que lhe permitiu compor coisas como "A Hard Rain's A-Gonna Fall" e ter utilizado isso em outras canções suas (geralmente longas e com um esquema de estrofes que se inicia e termina sempre do mesmo modo, com a mesma métrica e até as mesmas palavras). Isso permite que uma canção sem refrão definido seja tão impactante e capture tanta atenção quanto uma que só tenha refrão.

Gostei muito da sua afirmação de que é "um livro que fala menos sobre fatos de sua vida e mais sobre as motivações da sua vida". É uma definição perfeita da obra.

Quanto a vê-lo como um mito, é justamente pelo fato de se ter poucas informações sobre "fatos de sua vida" e muita lenda em torno da sua figura - algo que ele parece apreciar de longe, sem se dispor a nos informar corretamente. Aí eu acho que se criam certas mitificações - como aquela anedota dele ter ido a uma encruzilhada e feito um pacto com Satanás. É um procedimento interessante dele se o enxergarmos como uma continuação do anedotário do blues e do folk - essas histórias de pacto, de ter sido ensinado a tocar violão por um morador de rua, etc.

Também me informaram que o volume II sai esse ano. Esperemos.

Grato e volte sempre.