sexta-feira, julho 4

Não estou lá (I'm not there, EUA, 2007)


Todd Haynes tem mais de 20 anos de carreira - nunca foi convencio- nal. Num filme, se utiliza da psicodelia e do glamour para falar do rock dos anos 70; no outro, usa bonecas da Barbie; há ainda uma releitura de um clássico de Douglas Sirk e um premiado em Cannes que só fortaleceu a sua alcunha de diretor controverso. Felizmente, não seria agora que Haynes mudaria – I’m not there não se tornou a tão (in)esperada exceção.

Quando nos vem à mente uma cinebiografia de algum artista do ramo musical, logo imaginamos um filme com mais de 2 horas de duração, cheio de sacadas para fãs, muita cantoria, uma esmerada melodramatização da vida do protagonista e o ator que representa este – um sósia cujo desafio maior não é interpretar bem, mas imitar o melhor possível a voz e as manias físicas do seu homenageado. Como se não bastasse, essa parece ser a fórmula perfeita para um ator ganhar um alto prêmio. Dêem uma olhada na lista abaixo dos últimos 8 oscars concedidos a atores e atrizes:


Com tal relutância, mista de descrença e curiosidade, pus o filme I’m not there no DVD. Mas, ora, eu ainda não conhecia o trabalho de Haynes. E só foram precisos 2 minutos de projeção para eu compreender que estava diante de uma cinebiografia musical bem diferente.

Ao término da sessão, me pareceu bastante clara a mensagem do diretor: Bob Dylan não é Jesus Cristo, mas por pouco. Salvo improvável engano, creio que nenhum artista da era moderna sofreu tantas mudanças ao longo da vida e fez com que cada uma delas representasse um modelo para a sociedade e entranhasse por si só na cabeça das gerações correspondentes como Bob Dylan. Nem os Beatles, nem Picasso, nem James Joyce, nem Maradona, nem Fellini, nem ninguém. E é nessa particularidade única que Todd Haynes se agarra e fundamenta seu filme – não é à toa que nos são mostrados espécies de alter-egos do artista, recheados de referências, e tratados com notável irreverência. Não podemos esquecer que T. Haynes é fã confesso de Bob Dylan, e, como tal, não conseguiu “se controlar” nas filmagens, gravando algumas cenas bem insólitas, por vezes até descabidas.

Adentremos, agora, à relação dos personagens:

* WOODY GUTHRIE (Marcus Carl Franklin)
Referência óbvia a W. Guthrie, o pai musical de Bob Dylan. Numa das melhores atuações do filme, este faceta é de longe a mais carismática. São dignas de apreço as cenas nos vagões e as frases cheias de tom nostálgico proferidas por Franklin. Só sua morte que é meio bizarra: ele é engolido por uma baleia.

* ARTHUR RIMBAUD (Ben Whishaw)

Rimbaud é o poeta francês. Ben Whishaw, em sua atuação sucinta, não está nem bom nem mal. Os seus discursos soltados ao longo do filme são baseados em coisas que Bob Dylan realmente falou em entrevistas e etc.

* JACK ROLLINS (Christian Bale)
Para mim, a melhor atuação. E também a melhor história. A própria idéia do pseudo-documentário é sempre fascinante. Considero a atuação de Bale melhor que a de Cate Blanchett principalmente por aquela ser mais impessoal, ou seja: antes vem a representação, para depois os maneirismos. Blanchett inverte essa ordem.

* JUDE QUINN (Cate Blanchett)É até compreensível a preferência por esta personagem, e há vários motivos para isso: primeiramente, é uma mulher que está atuando; segundo: Cate Blanchett é sempre ótima; terceiro, sua história é a mais trabalhada e problematizada; por último, o mais incômodo de todos: ela é a quem mais se parece fisicamente com o cantor e compositor. Mas é justamente pela inversão da lógica de atuação que Blanchett propõe que há o alto risco de presenciarmos uma caricatura. Com efeito, Blanchett volta e meia lança uns “man!” pra lá e pra cá; no trecho em que ela, logo após conhecer pessoalmente o poeta beat, diz “is Allen Ginsberg, MAN!”, percebemos que torna-se constrangedor.

* ROBBIE CLARK (Heath Ledger)

O falecido Ledger faz um caprichado serviço ao lado de Charlotte Gainsbourg - uma dupla que não fez feio - neste que é o mais íntimo dos lados de Dylan. Eu diria que é a parte menos Haynes do filme, no tocante à direção.

* BILLY THE KID (Richard Gere)

Completamente desnecessárias, as passagens com Richard Gere soam herméticas demais para serem apreciadas devidamente. E mesmo que não fossem, é nelas que reconhecemos a falta de controle quase adolescente do diretor por estar lidando com um ídolo supremo seu.

I’m not there pode não ser um clássico, e muito menos uma obra-prima do gênero, mas é um dos melhores filmes de 2007. Para quem estava cansado de ver as mesmas biografias de sempre, este longa é um presente e tanto. Haynes já tinha sua reputação formada quando resolveu gravá-lo; naturalmente que este não é seu melhor projeto, mas só o fato de ser a biografia de uma lenda viva como Bob Dylan já se torna obrigatório assisti-lo. A maior de todas as proezas foi sem dúvida o diretor ter conseguido de fato concebê-lo, pois ele precisaria da permissão do artista – e quem sabe das histórias de Bob Dylan, reconhece a dificuldade de tal empreendimento. As biografias, fílmicas ou impressas em livro, quase sempre soam deturpadores e almejam o comercial. Bob Dylan sabe disso, e daí provinha sua aversão. Acabou confiando em seu fã Todd Haynes, mas com restrições: seu nome não poderia ser utilizado e ele não poderia ser chamado de “voz de uma geração” ou coisa parecida. Cumpridas as condições, o resultado foi este: um bom filme completamente esnobado pelo Oscar; à exceção, é claro, do prêmio de melhor atriz coadjuvante, no qual Cate Blanchett concorreu por este papel aqui - ela era, pra variar, “a mais parecida” com o artista original.

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