domingo, julho 6

Texto nº5: Trechos de entrevista - Parte II

Continuação dos Trechos de Entrevista

Godard – As suas idéias sobre o cinema - se as tinha - evoluíram, e como? Como filma, hoje, em relação a ontem ou anteontem? E como pensa o cinema depois do seu último filme? No meu caso, apercebo-me hoje que tinha outrora, há três ou quatro anos, idéias sobre o cinema. Agora, já não tenho. E para tê-las sou forçado a continuar a fazer cinema, até que me apareçam novas. Digamos, pois: como se sente em relação ao cinema? Não digo relativamente ao cinema que se faz, mas relativamente à arte do cinema?


Bresson – Sim, todavia devo-lhe dizer como me sinto relativamente ao que se faz. Ainda ontem, alguém me dizia (é uma censura que me fazem às vezes, sem querer, mas é uma): “Porque nunca vai ver filmes?” Pois é absolutamente verdade: não vou vê-los. É porque me metem medo. Apenas, e simplesmente por isso. Porque sinto que me afasto deles, que me afasto dos filmes actuais, de dia para dia, e cada vez mais. E isso mete-me um grande medo. Pois vejo todos esses filmes aceites pelo público, e não vejo, de antemão, os meus aceites pelo público. E tenho medo. Medo de propor uma coisa a um público que é sensível a outra coisa e que seria insensível ao que faço. Mas também por isso que de vez em quando me interessa ver um filme. Afim de ver o desfazamento que há. Então, apercebo-me, sem querer, que afasto-me cada vez mais de um cinema que, na opinião, entra com o pé esquerdo, isto é que se afunda no music-hall, no teatro fotografado, e que perde completamente a sua força e o seu interesse (e não só o interesse mas também o poder), e que caminha para a catástrofe.


Não que os filmes custem muito dinheiro, ou que a televisão seja uma rival, não, mas simplesmente porque esse cinema não é uma arte, se bem que o pretenda; não passa de uma falsa arte, que tenta exprimir-se sob a forma de uma outra arte. Ora, não há nada pior e mais ineficaz que esse género de arte.


Quanto ao que eu próprio tento fazer, com imagens e com sons, decerto que tenho a impressão de que sou eu que não me engano, e que são os outros que se enganam. Mas tenho também a impressão, primeiro, de que me encontro em presença de meios demasiado abundantes (que tento reduzir, porque o que mata também o cinema, é a profusão dos meios, o luxo - e o luxo nunca deu nada às artes), depois, que estou na posse de meios extraordinários. Isto leva-me a dizer-lhe outra coisa: parece-me que as artes - as belas artes, se quiser, - estão no declínio, e mesmo no fim. Estão a morrer.


Godard – Penso isso também.


Bresson – Já não resta quase nada delas. Em breve, já não existirão. Mas, curiosamente, se são mortas pelo cinema, pela rádio, pela televisão, são precisamente esse cinema, essa rádio, essa televisão que as matam, que vão acabar por reconstruir uma arte, por reconstruir as artes - mas de uma maneira completamente diferente decerto, e talvez mesmo não seja mais utilizada a palavra arte. De qualquer modo, já não será a mesma coisa.


É pelo cinema - direi, pelo cinematógrafo, porque gosto de fazer a diferença, como Cocteau a fazia, entre o cinema, isto é os filmes correntes, e o que é apesar disso a arte cinematográfica - é pois pela cinematografia que reviverá a arte que o cinema está a matar. O culpado, os culpados da morte das artes, são os meios mecânicos actuais de difusão. Acerca disso, Ionesco disse, no outro dia, algo de bastante bonito, de muito justo: estamos diante de milagres. O cinema, a rádio, a televisão, são milagres, mas o que não é miraculoso, são os filmes, as emissões televisivas, as reportagens radiofônicas. Portanto, a arte está atrasada.


Talvez não seja justo dizer que a arte está atrasada em relação aos milagres, deveria dizer-se mais precisamente que a arte foi morta pelos milagres, mas que deve reviver graças a esses milagres.


Godard – Não teria expresso isso dessa maneira mas penso também que é o fim. Somente, não sei mesmo como...


Bresson – Como vai recomeçar?


Godard – Sim, como vai recomeçar.


Bresson – Eu sinto, não no cinema, mas no cinematógrafo, uma arte extraordinária, maravilhosa, mas que não está em nenhumas mãos. Que eu tento agarrar. Não sou eu que sou maravilhoso, são os meios que estão à minha disposição. Tento aproveitar esses meios, e ao fechar a porta - à chave! - ao teatro, que é o inimigo do cinematógrafo. E posso dizer-lhe isto, a você, que utiliza actores e que os sabe utilizar...


Godard – Quer dizer: o teatro é o inimigo do cinematógrafo, mas não num palco...


Bresson – Evidentemente. O teatro é o teatro. É mesmo por isso que as pessoas do teatro que querem mudar o teatro nunca o mudarão. Ele existe, não o podem mudar, ou então será outra coisa, não teatro. Porque ao quererem mudar o teatro, ao quererem casá-lo com o cinema, matam um e outro: não só o cinema mas também o teatro. Não há absolutamente nenhuma possibilidade de mistura.


Sempre que o teatro mete o nariz no cinema, é a catástrofe, e, reciprocamente, sempre que o cinema mete o nariz na cena. Vejam o resultado, quando queremos fazer esses ruídos extraordinários, essas projecções, esses jogos de imagens... Que é isso? De modo nenhum teatro!


Bresson, o entrevistado; Godard, a seguir, quase perde a paciência.


Godard – Falava há pouco dos actores...


Bresson – Os actores? Pois bem…


Godard – Não vejo a diferença entre um actor e um não-actor, visto que de qualquer modo é alguém que existe na vida.


Bresson – Mas é aí, na minha opinião, é aí que está a questão, é à volta disso que tudo gira...


Godard – Se temos um actor de teatro, então precisamos de utilizá-lo... na verdade, na sua qualidade de actor, e podemos sempre chegar...


Bresson – Não há nada a fazer.


Godard – Chega um momento, sem dúvida, em que não há nada a fazer, mas há também um momento em que se pode fazer qualquer coisa.


Bresson – Tentei-o, outrora. E quase consegui fazer qualquer coisa. Mas apercebi-me de que se cavava um fosso...


Godard – Mas é mesmo assim um homem, ou uma mulher, que temos, diante de nós.


Bresson – Não.


Godard – Não?


Bresson – Porque adquiriu hábitos. Mas penso que nos estamos a enfiar em demasiadas sutilezas, abstracções. Era preciso... enfim: vou acabar essas notas, esse livro que estou a fazer, e onde explico tudo isso. E preciso de muitas páginas para explicar o que se passa, explicar a diferença que há entre um actor profissional que tenta entregar-se, tenta esquecer, tenta... e que não chega a nada.


Godard – Mas não podemos considerar simplesmente o actor um pouco como… digamos: um atleta, ou um corredor, isto é um homem que tem um certo treino para fazer algo; e não podemos servirmo-nos desse treino para obter algo, mesmo que não queiramos..


Bresson – Mas pensa mesmo que se eu pudesse obter o que quero com um actor me afligiria tanto?! Pois tudo o que faço me dá um trabalhão. E se tivesse querido aceitar actores, vedetas, estaria rico. Ora, não estou rico. E sou pobre. É que há, primeiro, algo que me fez parar e reflector. Não durante o trabalho, mas depois.


Godard – É verdade: chega uma altura em que os actors estão corrompidos, mas, quando utilizamos um amador, a partir do momento em que o utilizamos para lhe mandar fazer coisas num filme, ele representa. De uma maneira ou doutra fazêmo-lo representar.


Bresson – Não. De maneira nenhuma. E é mesmo essa a questão.


Godard – Enfim... falemos a mesma língua: fazêmo-lo viver.


Bresson – Não. E então, aqui, chegamos a uma explicação... que gostava mais de deixar para outra vez. Disse-lhe que estava a escrever sobre isso. Então preferiria, se quiser, dar-lhe, quando o meu livro sair, as notas que reproduzo, e que mostrarão isto: há um fosso absolutamente intransponível entre um actor, mesmo tentando esquecer-se, tentando não se controlar, e uma pessoa virgem de cinema, virgem de teatro, considerada como uma matéria bruta que não sabe mesmo o que é e que nos entrega o que não queria entregar ninguém.


Vê por isto que há aqui algo de muito importante, não só relativamente ao cinematógrafo, mas mesmo relativamente à psicologia. Relativamente a uma criação que se torna então... que é uma criação com o corpo, com os músculos, com o sangue, com o espírito, que se junta à nossa criação. Pois essa personagem virgem, estamos misturados com ela. Quer dizer que chegamos a pôr-nos dentro dela, e duma maneira... que não quero explicar agora porque isso nos levaria muito longe, simplesmente: chegamos a estar presentes no nosso filme e não só porque o pensamos, e lhe metemos palavras que tínhamos escrito, mas porque estamos nele.

Um actor, não podemos estar dentro dele. É ele que cria. Não nós.

Godard – Quando diz: virgem de toda a experiência, compreendo muito bem, mas a partir do momento em que faz algo, em que roda um vigésimo quarto de segundo, é menos virgem um vigésimo quarto de segundo. Para dar uma comparação, é um pouco como um ateu que, uma vez mergulhado na água, será baptizado e teoricamente cristão. Do mesmo modo, um não-actor: há algo que ele não possui, mas que vai adquirir logo que mergulhar no cinema. Dito isto, na base, é sempre homem como os outros.


Bresson – Não, de modo nenhum. Vou-lhe dizer...


Godard – Então não consigo compreender...


Bresson – Não, não consegue compreender... É preciso compreender o que é um actor, o que é o seu ofício de actor, o seu jogo. Em primeiro lugar, o actor nunca deixará mais de representar. O jogo é uma projecção.


Godard – Podemos quebrar isso, destruir, impedir o actor de...


Bresson – Não, não podemos impedi-lo. Oh! mas eu tentei!... Não podemos impedi-lo de representar. Não há absolutamente nada a fazer: não podemos impedi-lo de representar.


Godard – Então, podemos destruí-lo.


Bresson – Não, não podemos.


Godard – Sim. No máximo, podemos destruí-lo, assim como os Alemães destruíram os Judeus nos campos de concentração.


Bresson – Não podemos, não podemos... o hábito é muito forte. O actor é actor. Temos diante de nós um actor. E que opera uma projecção. É esse o seu movimento: projecta-se para o exterior. Enquanto a personagem não-actor deve ser absolutamente fechada, como um vaso com uma tampa. Fechado. E isso, o actor não pode fazer, ou se o fazer, nesse momento, já não é nada.


Pois é verdade que há actores que tentam. Mas quando o actor se simplifica, ainda é muito mais falso do que quando faz de actor, do que quando representa. Pois nós não somos simples. Somos extremamente complexos. E é essa complexidade que encontramos na personagem não-actor. Somos complexos, e o que o actor projecta não é complexo.

Bresson, ao lado de Tati, é um cineasta completamente diferente de quaisquer outros franceses.


Godard – Há duas tendências em si (e não sei qual lhe corresponde melhor): é, por um lado, um humanista, por outro, um inquisidor. São conciliáveis ou...?


Bresson – Inquisidor? Em que sentido? Não no sentido…


Godard – Ah, não no sentido Gestapo, decerto! Mas num sentido digamos...


Bresson – No sentido Inquisição? São Domingos?...


Godard – Sim, apesar de…


Bresson – Ah! Não. Não…


Godard – Ou então, digamos sobretudo: jansenista.


Bresson – Jansenista, então, no sentido de renúncia.


Godard – Sim, mas mesmo assim, há outra coisa, e a palavra inquisidor...


Bresson – Enfim, Inquisidor! Não quer dizer que imponha a minha maneira de ver as coisas. Pois imponho, sim – não posso fazer de outro modo – a minha maneira de ver, de pensar, o meu ponto de vista pessoal, mas como todas as pessoas que escrevem... Enfim, se tenho algo de inquisidor, direi então que vou procurar nas pessoas o que encontro de mais, subtil de mais pessoal.


--------------------------------------------------------------------------


* Fim da 2ª e última parte dos Trechos de Entrevista.

Nenhum comentário: