quarta-feira, agosto 6

Das Confissão

Elomar na "hora mágica"

Gosto de certos discos. Escuto-os vez ou outra, a depender das predisposições que encontro em meus ânimos: entre Miles e Caimmy, entre Dominguinhos e Gardel, entre Bethânia e Mitchell passeio com tranqüilidade, sem conhecer-lhes os trabalhos inteiros, desgostando aqui e ali de certa canção, certo verso, certo acorde. Com o devido afinco, porém, só percorro duas obras: uma, já indevidamente tratada em especial aqui mesmo no Moedoteca, é a de Bob Dylan - pelos motivos já explícitos ao longo de tantos textos, o controverso, o desafinado, o mentiroso, o manipulador compositor norte-americano consegue-me como cúmplice. Digo cúmplice e tenho minhas justificativas: Elomar afirma não ter fãs, mas cúmplices. Gente que, na medida em que conhece e desvenda seus delírios sonoros e líricos, vai se percebendo encantado - no sentido menos singelo e comezinho da palavra, mais fantástico e místico do verbete: o violão do menestrel sertanezo hipnotiza e conduz. O descobrimento de sua obra, por minha parte, tratou-se, em verdade, de redescoberta. Ia, já adulto, escutando-lhe o cancioneiro e rememorando melodias outrora familiares. Das infâncias. De LPs hoje comidos, vendidos, perdidos em meio ao avanço tecnológico e à mudança de endereço. Algumas, talvez, jamais escutadas - a lembrança vinda dessa abstração que chamamos identidade e com a qual não se pode conviver de forma pacífica. O sertão, que é minha casa e é minha vizinhança, entranha-se no cancioneiro tanto quanto em alma de gente aqui nascida - inútil ironizar, rebelar-se, fugir. Não se trata, contudo, de uma transposição de aspectos físicos, geográficos e humanos para uma partitura e uma seqüência de versos. O Sertão de Elomar, artista de imaginação fecunda e rara, não se contenta com vilezas mundanas e exige que o ouvinte participe - daí a cumplicidade. Jamais encontrei obra mais aberta, mais necessitada de quem a ouça e compartilhe. Elomar se constrói na medida em que seus ouvintes se fazem. Nenhum outro compositor tem tamanha capacidade de estimular a imaginação de quem o ouve. Ao mesclar épocas - descaracterizando-as para pintá-las ao nosso bel prazer; ao misturar paisagens - trazendo-as de onde quer que seja para os nossos pés; ao distender seu som e suas melodias ao ponto delas só se concretizarem nas sensações de quem as ouve - é assim, então, que Elomar nos deixa tomar sua obra, tornando-nos profundamente identificados com ela, ao ponto de já não considerá-la excêntrica, mas vital e intrínseca ao viver de quem caminha em sertão puro, sertão perdido ou sertão absolutamente irreal, que só sobrevive por seguir Guimarães Rosa, outro cúmplice, segundo o qual o Sertão está em toda parte.

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