sábado, agosto 2

No Direction Home (EUA, 2005)


A um programa de rádio na época de lançamento do seu primeiro ou segundo disco, Dylan revela: “nasci em Dulluth, Minnesota, em 1941. Fui para Gallup, Novo México. Deste então morei em Iowa, Dakota do Sul, Kansas, Dakota do Norte, por um tempo. Comecei tocando piano em festas, quando tinha 14 anos. Arvella Grey, uma cantora de rua de Chicago, me ensinou o blues há uns quatro ou cinco anos. Conheci um cara chamado Mance Lipscomb, de Navasota, Texas. Ouvi sua música. Fui apresentado a ele por seu neto, um fã de rock and roll”. Com exceção do lugar onde nasceu, é bem possível que todo o resto seja uma mentira deslavada. Mas vamos entender por quê.


Dylan tinha 19 anos quando aportou em Nova York, mais precisamente no boêmio Greenwich Village, fugindo de uma vida medíocre em sua cidade natal e de um curso universitário que não freqüentava. “Passava as noites cantando e tocando, não tinha tempo para as aulas. Simplesmente não as freqüentava.” Em NY, Dylan tocava em modestos clubes e cafés seu repertório folk, ancorado nas canções de Woody Guthrie, cuja obra tinha recém-descoberto e naquele momento admirava profundamente. A prática de passar o chapéu entre os clientes, que pingavam generosamente suas moedas, era o que lhe garantia algum prato de comida. Todos os cantores e artistas se conheciam em Greenwich Village, e possuíam histórias de vida, no mínimo, intrigantes. Quem se interessaria por um moleque de 19 anos que viera de Minnesota? O jeito foi forjar uma história. E Dylan descobriu que sabia fazer isso muito bem.


É nas três horas e meia de No Direction Home, documentário dirigido por Martin Scorsese, lançado aqui no Brasil em 2005, que descobrimos como Dylan fez para ganhar a admiração de seus camaradas de Greenwich Village, transformar-se no bardo da esquerda estadunidense com canções como “Blowin’ in the Wind” e “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”, tocar nos festivais folk mais badalados, chegar às paradas de sucesso com “Like a Rolling Stone” e a partir daí escandalizar os fãs mais puristas ao eletrificar seu som e mudar drasticamente sua maneira de agir em relação ao mundo folk e à música de protesto. Também, difícil cobrar coerência de estilo em alguém que se dizia um “expedicionário da música”, influenciado somente pelo som. Na sua participação para o documentário, admite: “Foi o som que me influenciou. Não era propriamente quem. Foi o som em si”. No documentário, no entanto, percebemos que não foi só o som. O já citado Woody Guthrie exerceu forte influência em Dylan. Anterior a Woody, livros como On the Road e o cinema de Marlon Brando e James Dean também ajudaram a moldar seu espírito inquieto.



No Direction Home pretende — e consegue — ser a biografia definitiva de Bob Dylan, pelo menos do período que se dispõe a narrar. Como já afirmei, os primeiros momentos em sua terra natal até depois culminar no furioso estrelato e suas implicações também furiosas — vaias, hostilidades de toda sorte por parte dos antigos admiradores — nos anos de 65 e 66.

Gente muito boa participa do documentário: há entrevistas exclusivas com os cantores Pete Seeger, Maria Muldaur, Joan Baez e Al Kooper; a ex-namorada Suze Rotolo, fotografada ao lado de Dylan na capa de Freewheelin’; também o poeta Allen Ginsberg, numa entrevista concedida pouco antes de sua morte em 1997. Há imagens raras de Bob no palco e na estrada — a impressão que se tem é que para onde ele fosse uma câmera o seguiria. Numa das cenas mais hilárias, ele constrói versos sobre o letreiro de um insignificante pet-shop londrino, que dizia algo como “Nós podamos, banhamos e lavamos o seu cachorro.” e “Venda de animais e pássaros sob consignação.” Dylan, possivelmente fora de si (leia-se chapado de maconha), embaralha as palavras e faz versos como “Procuro alguém para passarinhar minhas compras, tosar minha grana e banhar meus pés. Procuro alguém para bestializar minha alma, tosar meu lucro, banhar a grana e devolver meus cigarros”. Esta cena, à primeira vista insignificante, parece-me desvendar o Dylan que se seguiria a partir de 65, pois o mostra desvencilhado de todo o ranço adulto (leia-se arcaico) que aparentava ter quando era tido como “voz de uma geração”. Brincalhão e irônico, Dylan começa a construir sua música sobre esses alicerces: a ironia e o vigor de sua juventude. O documentário termina quando isso começa a acontecer, mas há uma ressalva: “Bob Dylan continua até hoje compondo e gravando suas músicas”. Informação mais que necessária para as novas gerações.

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