sexta-feira, agosto 15

O Errante, O Violêro II - Faixa-a-Faixa


1. Na Estrada das Areias de Ouro (de Das Barrancas do Rio Gavião)

Canção breve e intimista. Delírios imagéticos por entre os mitos de um Sertão antigo - de escravos, senhores de engenhos, magias e riquezas. O tema que inicia, entremeia e encerra a composição é de uma sutileza rara - ainda que de paralelo impossível com o outro mestre dos tons sutis, João Gilberto, já citado no texto.

2. Cantiga de Amigo (de Das Barrancas do Rio Gavião)

Sensual e mística, a Cantiga de Amigo segue em sua estrutura simétrica e rigorosa. Iniciam-se, aqui, as referências recorrentes ao sagrado número 7 - cujos ecos são encontrados em diversos de outros discos seus.

3. Arrumação (de Na Quadrada das Águas Perdidas)

É ligeira, mas é lenta. Uma lírica de padecimentos, é lamento de velho arrependido e poeta. Guarda-se, ao longe de um minuto e tanto, para crescer ao fim.

4. Clariô (de Na Quadrada das Águas Perdidas)

Escrita em sertanês afiado, cantada em melodia sempre a oscilar, as cordas já são mais fortes e parecem até pedir certo batuque. Outra regravada por Xangai.

5. Joana Flor das Alagoas (de Das Barrancas do Rio Gavião)

Das mulheres de Elomar, uma das mais intrigantes. Repleta de imagens de chuva, de fim esperado de estiagem, tem estrutura pouco convencional, quebrada - nos seus três minutos, varia como se sinfonia fosse.

6. Parcelada (de Na Quadrada das Águas Perdidas)

"Todo cantadô errante
trais nos peito u'a marzela
nas alma luá minguante
istrada e som de cancela"


Dentre as estranhas, talvez a de maior estranheza. A referência ao "cantadô de côco" não é gratuita - sua ligeireza aproxima-a desse estilo, meio picaresco, de certos músicos sertanejos. O violão singular acentua a belíssima e singela poesia.

7. Tirana (de Na Quadrada das Águas Perdidas)

De levada campeira e sinuosa, traz o compositor escavando temas religiosos e palacianos - constantes em sua obra, cheia de reflexos e delírios medievais. As referências ao "Rêno de Portugal" e a Adão, contudo, não impedem outras citações a jabá, rapadura e pinga de cana.

8. Cantiga Pastoral (de Na Quadrada das Águas Perdidas)

De certa forma, antecipa o tom que domina as posteriores Cartas Catingueiras. Religiosa, sombria e lenta - estranha a quem, como eu, por conta do título, vai ouvi-la esperando bucolismo tranqüilo e aprazível.

9. Cantada (de Das Barrancas do Rio Gavião)

"Somos apenas mistérios de Deus".

10. Curvas do Rio (de Na Quadrada das Águas Perdidas)

Mais uma canção de retirada. Desolação acentuada por um sopro escasso que corre pela canção, vez ou outra. Ainda que vá, esse retirante só pensa na volta e em permanência: "sô imbuzêro das bêra do rio".

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