sexta-feira, agosto 15

O Errante, O Violêro


Meses a ouvir João Gilberto, a apreciar-lhe aquele toque mágico de violão, o andamento exangue e a sutileza de suas modulações. A música popular baseada no violão, brasileira ou xena, já parece decifrada, encerrada no que poderia trazer em matéria de novas percepções em seis cordas: não há nada além da bossa. Até que, sem esperanças, escuta-se Elomar. E a estranheza, se falamos aqui de ouvidos e almas sensíveis, é inevitável.


Na medida em que seu cancioneiro se desenrola, toma-se contato com um trabalho sem paralelo possível em nossa tradição popular. As dezenas de canções feitas, arranjadas e registradas, quase todas, de um modo arcaico, pouco afeito às tecnologias de registro, encontram-se, o tempo inteiro, num limiar que é pouco nítido pelo Nordeste. Perdidas por ali, entre as pelejas mais rasteiras e os concertos mais elevados.


Liricamente, possuem momentos dignos da melhor poesia popular do Nordeste - momentos em que a tradição cordelista encontra-se num estado intermediário entre o Romanceiro Popular Nordestino e a elevada poesia lançada naqueles livros estranhos que não costumam levar xilogravuras. Elomar não parece se importar em freqüentar os dois ambientes das letras: vai de Dante a Azulão.


O registro de suas canções é um tanto esparso - mas, ainda assim, há material suficiente para tomá-lo como parte mesma de duas tradições que, no sertão, se misturam de forma natural: a música e a literatura populares. Nas duas, Elomar entra e firma-se de maneira inquestionável - desde o primeiro álbum, ao apresentar-nos "O Violêro" ou "O Pidido", o compositor demonstra um conhecimento profundo do Nordeste e dos seus cantadores e cordelistas.


É o que se nota, já, na abertura de Das Barrancas do Rio Gavião, marca de estréia. No que chama de dialeto sertanês, vai se apresentando a quem se interessar:


“Vô cantá no canturi primero

as coisa lá da minha mudernage

qui mi fizero errante e violêro

eu falo séro i num é vadiage

i pra você qui agora está mi ôvino

juro inté pelo Santo Minino

Vige Maria qui ôve o qui eu digo

si fô mintira mi manda um castigo”




Mais notável neste caso, contudo, é a melodia escassa das estrofes - nas quais o violão acompanha o cantador, quase num galope, como se ele apenas recitasse as palavras, método muito comum aos repentistas que discorrem sobre uma seqüência idêntica martelada na viola. A métrica popular, muito familiar aos ouvidos dos sertanejos, atenua a melodia difícil e faz com que a recitação soe interessante. Mas é apenas o refrão que esbanja alguma melodia:


“Apois pro cantadô i violero

só hai treis coisa nesse mundo vão

amô, furria, viola, nunca dinhêro

viola, furria, amô, dinhêro não”

Tudo isso considerado, pode-se afirmar, sem medos, que "O Violêro" é uma clara e inegável carta de intenções de Elomar. Algo que, para quem conhece o mínimo que seja da literatura popular da região, não é estranho: inúmeros cordéis se valem de uma espécie de apresentação e justificativa pessoais dos poetas, que fazem auto-referências a todo o momento. Zé Limeira, por exemplo, canta


"Eu me chamo Zé Limeira

Da Paraíba falada,

Cantando nas Escritura,

(...)"


ou


"Eu sou Zé Limeira e tanto

Cantando por todo canto

Frei Damião já é santo

(...)"


Ainda assim, e considerando todo o tradicionalismo que Elomar faz questão de ter e expressar, a sua relação com essas práticas e métodos antigos não é absolutamente pacífica ou linear. No geral, é difícil encontrar relações diretas entre as suas composições e as tradicionais canções da região: seu som aparece estranhamente sofisticado quando posto em comparações. Isso, contudo, não lhe rouba a condição de artista entranhado à caatinga, cuja obra reconhecemos como representante nítida e óbvia dos falares e cantares locais.


Desde sua estréia, percebemos a boa utilização que Elomar faz dos temas típicos: em "O Pidido", por exemplo, escutamos uma mulher que, poeta conhecedora de figuras e mitos da caatinga, verseja alguns deles de forma magistral. De início, refere-se à feira, um ponto de encontro e de trabalhos culturais central para o sertão. Aos distantes, basta dizer que a literatura de cordel é encontrada tradicionalmente nas feiras - onde se vende de tudo e de onde a mulher da canção pede que seu interlocutor lhe traga "Água da fulô qui chêra/ Um nuvelo e um carrin" e ainda "um pacote de misse".


Mais relevante, porém, é o fato dessa mulher ser alguém condenada - pois, um "cego cantadô" disse-lhe


"Jogano um mote de amô

Qui eu havéra de vivê

Pur esse mundo

E morrê ainda em flô"



Há ainda referências a certos pratos típicos ("paca, panelada e frigidêra") e à famigerada figura do "lubisome cumedô". Esse eu-lírico feminino é extremamente poderoso e promove uma belíssima canção, na qual Elomar une as tradições culturais e imaginativas do povo sertanejo - e que retornará a aparecer no Auto da Catingueira, álbum representante da sua música culta. Na versão do Auto (grafada como "Do Pidido") é Andréa Daltro quem nos canta e emociona, acompanhada apenas pelo violoncelo suntuoso de Jaques Morelembaum - um registro que supera a versão do álbum de estréia e que nos leva a uma confusão recorrente no repertório de Elomar: até que ponto pode-se separar o cancioneiro da sua obra erudita?


Vejamos, por exemplo, o caso das Árias Sertânicas, álbum datado de 1992, cuja proposta "é de mostrar ao público cúmplice fragmentos ou instantes de suas óperas, numa espécie de aprendizado". Gravado apenas com vozes e violões, trata-se de um dos mais belos discos de Elomar. E, talvez justamente por essa característica de registro intimista, sem a grandiosidade ostensiva que esperamos de uma obra erudita, suas Árias confundem-se com o seu cancioneiro: "Ária do Apartamento", uma das preferidas deste cúmplice que escreve, carrega toda uma melodia indescritível e uma letra igualmente irretocável sobre a passagem feroz dos anos (sobre a juventude diz que "uma vez passada/ é irreversível, não mais volve atrás" e continua "para iludir o nosso coração/ nossa alma enchemos de ilusão"). No entanto, a dolorosa escrita de Elomar, no caso das Árias, é claramente amparada por músicas muito mais elaboradas do que as que encontramos nos discos dedicados às canções e - portanto - devo abreviar as considerações sobre as Árias Sertânicas e deixá-las para um provável texto seguinte. A união do culto e do popular se dá também por outros meios - tais como o encontro entre o violão de Elomar e o piano de Arthur Moreira Sales, que não esconde a admiração que sente pelo cantador sertanejo: declara que tem dois compositores favoritos e que são eles, simplesmente, Chopin e Elomar. Juntos, registraram um concerto e o lançaram, em 1980, sob o nome de Parcelada Malunga - reunião de algumas canções Das Barrancas do Rio Gavião, das Cartas Catingueiras que viriam três anos depois e do disco duplo de nome Na Quadrada das Águas Perdidas, outro clássico perdido dos anos 70.


Capa de Na Quadrada das Águas Perdidas

Lançado em 1978, Na Quadrada das Águas Perdidas é a reunião de 20 canções que tratam da seca e da vontade de água. Segundo escreve Elomar no prefácio do seu Sertanílias, tardio romance de cavalaria recentemente lançado, a Lagoa Quadrada que inspira o título (e o tom da obra) tem características que lhe tornam um lugar místico, portal para dimensões e tempos outros: "quando cheia por ocasião das Águas, logo em seguida se esvazia sem ter fendas ou canais de escape no fundo de sua bacia". É um álbum de produção mais limpa do que a estréia, de cinco anos antes (na qual é nítida a impressão de que uma poeira espessa cobria chão, equipamentos, manuscritos, instrumentos e garganta do menestrel).


A faixa que intitula o disco, por exemplo, traz um violão límpido - violão que surpreende, junto à melodia dura, pela alternância constante de andamento e batidas. Narrando caminhadas pelas mais brabas caatingas, ao fim há uma espécie de redenção, ao ouvir-se, num dos momentos mais melodiosos da canção:


"Onte pr'os norte de Mina o relampo raiô

Mucadim a mãe do ri as águas já tomó"


Ainda que exista a esperança de água, a constante, ao longo do álbum, é a desolação. Vê-se isso claramente em faixas como "A Pergunta", que consiste num diálogo entre um Tropeiro e um Quilimero - com o primeiro procurando notícias da terra que deixou para trás:


"na catinga tá chuveno?

ribeirão estão incheno?

(...)

me arresponda meu irirmão

cuma o povo de lá tão."


O Quilimero, por sua vez, não descreve um cenário próspero ou animador:


"Só a terra que você dexô

quínda tá lá num ritirou-se não

os povos as gente os bichos as coisa tudo

uns ritirou-se in pirigrinação

os ôtro os mais velho mais cabiçudo

voltaro pru qui era pru pó do chão

adispois de cumê tudo

cumêr' precata surrão

cumêr' côro de rabudo

cumêr' cururú rodão

(...)

na catinga morreu tudo

qui nem percisô caxão"


Um dos momentos mais inspirados deste Na Quadrada das Águas Perdidas se encontra já na quarta faixa: "Arrumação" é uma melodia tocante e uma letra igualmente sublime, marcada, de início, pela espera (dessa vez, não vã) da chuva:


"Josefina sai cá fora e vem vê

olha os fôrro ramiado vai chovê"


Muito embora, próximo ao final da canção, Elomar entoe que


"já sô um caco véi nesse meu sertão

tudo qui juntei foi só prá ladrão"


Que só serve para acentuar a condição desditosa do sertanejo em tempo das secas cíclicas que comem a região - ainda que a chuva invariavelmente retorne, a certeza da próxima estiagem põe em desassossego qualquer alma que zele pela sobrevivência sua e dos seus; gente que, como os cantadores citados em "Parcelada", traz "o coração mais discrente/ dos amô da cantiguêra".



Encontra-se no disco, ademais, inúmeras peças de outras obras maiores - também situadas entre a sua produção culta - como a própria "Parcelada", "Clariô", "Bespa" e "Dassanta" (todas do grandioso Auto da Catingueira). Já me propus, certas vezes, a decidir se Na Quadrada das Águas Perdidas é uma obra superior a Das Barrancas do Rio Gavião: no geral, embora com certa insatisfação, concluo que sim - mas não encontro, ao longo das suas vinte canções, algo que se aproxime da grandiosidade de "O Pidido". Ainda que "Função", singelas memórias juninas dispostas em melodia quase infantil, consiga versos como

"E a saudade me pegá essa fera

Quem pensar qui esse bicho é da cidade

S'ingana a saudade nasceu cá no sertão

Na bêra da foguêra de São João",


ela está mais próxima da bela "Cavaleiro de São Joaquim", momento raro em que a composição de Elomar se contenta com um andamento simples e de fácil assimilação já numa primeira audição. E, se a música do menestrel já foi devidamente classificada como "indançavel", "Função" é um forró quadradíssimo - que, numa posterior versão feita por Xangai, tornou-se um agradável e dançante baião. Assim, se o embate entre tais álbuns é equilibrado e só pode ser resolvido com exceções feitas aos dois lados, nenhuma dúvida tenho a respeito daquela que é a coleção definitiva do seu cancioneiro, disco no qual atinge o ápice como trovador e menestrel - Cartas Catingueiras é a música definitiva do sertão, música definitiva do seu maior cantador, música definitiva de uma tradição moribunda, mas ainda poderosa. E que será considerada num próximo texto deste especial.

Um comentário:

Anônimo disse...

Olá, estamos diante de um dos mais extraordinários exemplos de superação diante de todas as distorções impostas pela cruel globalização. É a essência da Arte perante qualquer imposição capitalista. Elomar é, distante, o mais incrível desta geração. E não querendo ser tão pessimista, mas nas próximas gerações dificilmente deverá aparecer algo parecido com tamanha fecundidade. Parabéns pelo texto e oxalá para novas surpresas sócio-artísticas como ELOMAR.

Gil de Juiz de Fora