sexta-feira, agosto 22

A Sanfona Culta


É erro comum. À vida campeira, se liga uma idéia de tédio. As imensidões desoladas da roça, das quais logo percebemos a capacidade de nos ensimesmar, não se assentariam ao artista, ao poeta que só vive de inquietude, de incômodos. Que se culpe, talvez, Baudelaire e suas manias de metrópole, de multidões, de flanar constante. Mesmo o árcade, em seu bucolismo de cartilha, é o citadino que, desde a urbe, observa o campo; retirar-se ao campo, entregar-se à suposta moleza de uma serra neblinada trataria de ceifar-lhe a veia poética: com a existência completa, é pendurar um capim no canto nos lábios e gozar.


A vida de Elomar, como se sabe, é de roça há umas quantas décadas. Seus dias de campo, ao que parece, cortaram-se apenas em sua época de estudante e cortam-se, hoje, em eventuais viagens para concertos, gravações e coisas outras que nós, público, ignoramos. Some-se a isso declarações como essa (cedida a Simone Guerreiro, autora de Tramas do Sagrado, livro dedicado à obra de Elomar e que, quando comprado, vem acompanhado de um CD com registros de "entrevistas" e canções):


"A Casas dos Carneiros, no início, é a fuga da urbe, do meio urbano, justamente pra me distanciar daquilo que conturba a minha criação; por exemplo, a modernidade; o avanço técnico-cientfíco, que é sempre contraponteante à minha obra".


Vê-se, daí, a distância que separa Elomar de qualquer espécie de arcadismo. Ele só cria no retiro. Apartado de grande parte dos modernismos, sua criatividade alimenta-se do exílio voluntário no meio rural e antigo. Essa inquietação é nítida: revela-se nas atividades diversas às quais se dedica. Idéias constantes para filmes, escritura de romances de cavalaria, idealização e realização de óperas, antífonas e sinfonias, idealização e realização de projetos como o da Fundação Casa dos Carneiros, etc.


Unindo a essa efervescência um talento raro para a composição, o desenvolvimento de sua obra erudita chega a parecer natural e inevitável. Afirmando que seu cancioneiro já está encerrado há mais de uma década, Elomar dedica-se por inteiro à música erudita, à qual costuma se referir pelo adjetivo "culta". Numa entrevista cedida em 2003, declara que:


"Sempre fiz as óperas e antífonas junto com as canções. Mas o ciclo do cancioneiro acabou. Acho que a canção é um espaço muito limitado... Os compositores de todos os tempos, Villa-Lobos, Mozart, Brahms, escreveram canções no início, depois foram saindo para coisa maior. Quem tem talento é assim; quem é limitado, fica só na canção."


Como é natural, a compreensão e a divulgação da sua obra culta é ainda mais improvável e difícil do que a do cancioneiro - e, se nem mesmo esse parece devidamente reconhecido, é muito provável que a maior parte de suas óperas, sinfonias e antífonas permaneça um longo tempo restrita apenas à partitura ou à imaginação do menestrel.


Incapaz que sou de analisar, de forma séria e qualificada, qualquer obra de música erudita, proponho-me, neste momento do especial, a um delírio particular a respeito de alguns dos poucos trechos já registrados e disponibilizados aos cúmplices.






1. Arrumação


Faixa encontrada no álbum Elomar em Concerto. Ficha técnica retirada do seu site oficial:


Quateto Bessler-Reis: Bernardo Bessler (1º violino), Michel Bessler (2º violino), Marie-Christine Sprinquel (viola) e Alceu Reis (cello)

Paulo Sérgio Santos (clarineta/sax)

Marcelo Bernardes (flauta/sax)

Antonio Augusto (trompa)

Octeto Coral de Muri Costa: Baixos: Felipe Abreu e Paulo Brandão - Tenores: Muri Costa e Kaleba Villela - Contraltos: Patricia Costa e Bia Paes Leme - Sopranos: Eveline Hecker e Malu Lafetá.

Jaques Morelenbaum (regência e direção musical)


“Arrumação”, a bem dizer, faz parte do seu cancioneiro - mas, nesse registro específico, ganha certos arranjos cultos, feitos pelo próprio compositor, e torna-se "talvez o primeiro 'improviso de côro, violão e orquestra' da história da música". Destaque para o coro, amparando e redimensionando o crescendo já notável na versão registrada em Na Quadrada das Águas Perdidas - acentuado também pelas cordas discretas. A certa altura, os versos cantados por Elomar diferem dos que cantam os coristas - se erro decorrente do improviso ou opção dos músicos, pouco sei.


2. Contradança


4º Canto da Fantasia Leiga Para um Rio Seco, que é "o primeiro registro sinfônico de Elomar, executado pela Orquestra Sinfônica da Bahia, regida por Lindenbergue Cardoso". O disco, que leva capa do artista feirense Juraci Dórea, foi lançado em 1981 e é hoje um clássico quase olvidado.


O violão inicial não dá margem a dúvidas: é Elomar quem o percorre - o acento sertanejo é claro nesse dedilhado ligeiro. De orquestrações contidas no início, é o violão quem guia a obra inteira até que, súbito, o compasso se acelere e o andamento mude drasticamente. Alternando as cordas melancólicas com os sopros pontuais e eufóricos, a “Contradança” desenvolve-se como repertório bem claro de folguedos e tristezas do Sertão: a sanfona junina, portanto, aparece brevemente - mas é decisiva para a compreensão e a fruição da obra.


3. Do Pidido


4º Canto do Auto da Catingueira, de 1983, "obra-prima definitiva da poética sertaneza brasileira".


Outro pedaço do cancioneiro que ganha arranjo novo: só o cello de Morelembaum e a voz de Andréa Daltro. E é muito. Muito porque esse sotaque de Andréa, essa sutileza de Morelembaum e essa sensibilidade de Elomar bastam-se, desprezando o que não for essencial, o que, fazendo contraponto ao tom menor do eu-lírico, só se tornaria artificial.


4. Dança da Fogueira


Uma das Árias Sertânicas, reunidas em álbum sob o pretexto de "mostrar ao público cúmplice fragmentos ou instantes de suas óperas, numa espécie de aprendizado".


Como se pode inferir pelo título, possui algo de junino e dançante. Os violões são amenos, quase cômicos ao início - mas, a certa altura, a melancolia surge outra vez:


"São João dormiu

São José me acordou"


E o andamento se contém, tornando-se mais melodioso.



Capa da Fantasia Leiga Para um Rio Seco

5. Agora Sou Feliz

João Omar, filho de Elomar, divide com o pai os vocais dessa Ária. Em tom solene, vocais e violões se completam até que alcancem outro momento de júbilo quase junino:

"Dança o meu coração
Nessa grande festa
Oh, glorioso dia
Dança porque não mais vou ficar só"


Que é breve. A influência dos cânticos religiosos, das ditas antífonas, é nítida na parte estritamente musical - o tema, contudo, opta pelo profano.

6. Parcela


3º Canto da Fantasia Leiga Para um Rio Seco. De início grandioso e sombrio. Seu tema parece encaixar-se à perfeição na descrição que Mário de Andrade faz da obra de Villa-Lobos, algo sobre a "nitidez crua, incisiva dos temas" - e, mais adequado ainda, lembro-me de como Elizabeth Travassos completa tal observação, falando de "primitivismo técnico e energia telúrica". Nada disso, contudo, reflete-se em obra grosseira - as sutilezas de Villa-Lobos e de Elomar são, também, provenientes dessa mesma força telúrica e primitiva.


7. Amarração


O 5º Canto da Fantasia Leiga Para um Rio Seco é, muito provavelmente, o mais belo registro da obra culta de Elomar. Em seus vinte e três minutos, demarcados vez ou outra pelo belíssimo e melódico tema, há uma progressão instrumental que, inevitavelmente, reflete-se em sensações raras no ouvinte. A mim, mais do que a perceptível influência dos métodos de Villa-Lobos, destaca-se o violão lânguido, a alternância de tons: ora a grandiloqüência de tubas, ora a concisão de cravos; ora a melancolia toda cheia de sons, ora os tons do violão espaçados por silêncios; ora um coro a cantar num puro sertanês, ora o trágico som de cellos e violinos. Ao que, ainda, se junta uma teimosa e surpreendente sanfona - que de tudo o mais talvez destoasse, não fosse o acento sertanejo explícito. Prova irrefutável de que, com o devido talento, descobre-se a grandiosidade da arte popular. Quase sempre alvos de preconceitos e desprezos, repente, tirana, chula, baião, ligeira, mourão - em tudo isso, Elomar, tino puro, descobre o épico, o sublime, a representação máxima de uma produção que se esconde pelos derradeiros sertões, talvez auto-suficiente, talvez incutida de uma vergonha de ser o que é. Sendo, pois, o som das gentes que lhe conhecem e amam profundamente e que através dele se moldam para a vida e a criação.



Elomar em treinamento de bater facão

Um comentário:

Anônimo disse...

"Fantasia Leiga..." é hoje o meu disco preferido. (Mauricio)