domingo, setembro 28

Versões


I. Quem já escutou Xangai não duvida de que se trata de um dos maiores intérpretes brasileiros. Tem uma voz poderosa, é exímio violeiro, tem a ousadia necessária para não perpetuar interpretações modorrentas e idênticas ao original e, além disso, ostenta aquele carisma indispensável. Não são poucas as versões que o cantador baiano fez para as obras de Elomar: dentre todas, destaco "Gabriela". Solitário ao violão, vai percorrendo a estrutura simétrica e previsível da obra até aceitar, e acentuar, as quebras melódicas e rítmicas: quando, lá pelo meio, passa a ser acompanhado por belíssimos sopros, alcança a imortalidade e a rara condição de intérprete que consegue melhorar uma canção de Elomar.


No álbum Cantoria de Festa, decide potencializar o traço forrozeiro de "A Função" e "Clariô". A primeira, mais distante da original, surpreende - mas é "Clariô" que, recheada de sanfonas e coros, se acelera e, assim como "Gabriela", soa melhorada.


Mais um destaque é a sublime interpretação de "Na Estrada das Areias de Ouro" - na qual notamos, encantados, sua habilidade ao violão, que se faz harpa, e sua capacidade de elevar a melodia, que se faz poesia.


Recomenda-se, ademais, sua parceria com o Quinteto da Paraíba, da qual saiu uma ótima versão de "Curvas do Rio".


II. Francisco Aafa nasceu no Piauí e criou-se em Goiás. Homem de poder vocal inquestionável, juntou-se ao violonista Felipe Valoz e gravou o disco Cantada do Sertanez de Elomar. Desde o início, fica claro que são músicos de estudo e que pretendem redimensionar a faceta erudita de Elomar, ainda que trabalhem, quase sempre, com seu cancioneiro. Nas puluxias que inauguram o álbum ("das Sete Portas" e "Estradeira"), Aafa sola de forma grandiosa. É só a partir de "Acalanto" que temos contato com a excelência técnica de Valoz, que se confirma em canções como "O Pidido" e "Arrumação" - nas quais sua condição de virtuose salta aos ouvidos, quase agressiva.


Destacam-se, ademais, "Cavaleiro de São Joaquim" e "Campo Branco", ambas interpretadas de forma tocante, com certa concisão.


Concisão que não percebo, por exemplo, em "O Peão na Amarração". Essa faixa das Cartas Catingueiras é, muito provavelmente, a mais problemática quanto à reinterpretação: sua melodia é tão carregada, seu andamento é tão quebrado que poucos conseguem controlar o crescendo irrefreável que, na espécie de refrão, avoluma-se de forma inacreditável:


Me alevantá nos carrasco

Lá nos derradêro sertão

Vazá as ponta afiá os casco

Boi turuna e barbatão

É a ceguera de dexá

Um dia de ser pião

De nun comprá nem vendê

Robá isso tomém não

De num sê mais impregado

I tomém num sê patrão


III. Essa mesma canção, interpretada e gravada por Dércio Marques, possui certo número de admiradores que não ignoro. Muita gente crê que o cantador mineiro superou a versão primeira de Elomar - e peço licença para discordar de forma incisiva: Dércio incorre no mesmo equívoco de Aafa e Valoz. A meu ver, trata-se de um erro de perspectiva: não percebem que, originalmente, a canção disfarça seu volume num violão contido e num vocal em tom menor - agigantando-se apenas no refrão já citado. As duas versões posteriores já se iniciam exageradas (sobretudo a de Aafa e Valoz) e, no ápice melódico, tornam-se insuportáveis - perdendo-se, inclusive, a própria melodia.


IV. Faz pouco tempo desde que Roze se tornou minha cantora preferida. Minha admiração por vozes femininas não é pequena: qualquer coisa que cantem Joni Mitchell, Bethânia ou Andrea Daltro torna-se, aos meus ouvidos, obra digna de respeito. Em seu primeiro disco, Roze canta "O Pidido" com uma naturalidade e uma entrega admiráveis: seu sotaque, seu timbre e sua liberdade melódica colocam-se no mesmo nível da versão entoada por Andréa Daltro e registrada no Auto da Catingueira.





V. "Claro que na urbe, na praia também é uma batalha. O pescador, o praiano. É uma luta também. O mar é outro sertão, o sertão molhado, o sertão das águas." Diz Elomar em depoimento à Simone Guerreiro.

A certa altura do segundo volume do Songbook dedicado à obra de Dorival Caymmi, pode-se escutar umas cordas eruditas, trágicas - lá por entre elas, vai se esgueirando um violão dedilhado. Os versos tardam, a tragicidade se acentua e, enfim, reconhecemos "A Jangada Voltou Só" - rearranjada e interpretada por Elomar, é registro único do contato do menestrel com a canção do litoral baiano. Nunca escondeu: pouco se identifica com a cultura "oficial" dessas terras - ela caminha ao mar, ele retira-se em direção aos sertões mais longínquos. Essa variedade, naturalmente, nunca foi um problema. Equívoco, em realidade, é acreditar ou aceitar uma uniformidade aborrecida.

Em meio a interpretações acomodadas e respeitosas, Elomar dá uma nova dimensão à tragédia marítima de Chico Ferreira e Bento. Os dois maiores compositores da Bahia, criadores incomparáveis do imaginário de suas terras, se encontram e se compreendem por inteiro.